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Bom dia. Namaste. Bom dia. Estou muito feliz de estar com vocês aqui, essa é a minha quarta visita ao Brasil.

É um país maravilhoso, com tanto potencial. E estou encantado de estar aqui para falar a vocês hoje sobre a ideia de capitalismo consciente.

Para ver o que isso significa, acho que há uma grande mudança acontecendo no mundo em termos do pensamento sobre o papel dos negócios na sociedade, e do quanto mais negócios podem fazer no mundo

do que já fizeram.

Há uma crença em muitos países pelo mundo de que o capitalismo se trata da exploração de muitos para poucos ficarem ricos.

E isso é realmente um grande equívoco. É verdade que há pessoas que ficam ricas com o capitalismo, mas isso acontece porque elas criam muito valor.

Mas é também verdade que essa é a instituição que mais levantou pessoas da pobreza. Fizemos mais em 50 anos do que todas as instituições humanas fizeram em 5 mil anos, através da instituição do capitalismo.

Podemos olhar a porcentagem de pessoas vivendo com menos de US$1.25 por dia, o que é definido como o nível de pobreza extrema: baixou agora para 10 ou 11%. E nos próximos 25 ou 30 anos, devemos conseguir completamente eliminar

a pobreza extrema nesse planeta. Isso era parte dos objetivos da ONU para o milênio. E estamos, na verdade, adiantados no plano, em termos de tempo. Isso, de fato, pode acontecer

nas próximas 2 ou 3 décadas. Muhammad Yunus foi o fundador do Grameen Bank,

em Bangladesh, e ganhou o prêmio Nobel por microcréditos, em sua maior parte para mulheres, para levantá-las da pobreza extrema. Ele disse que algum dia, durante nossas vidas, nossos filhos e netos

deverão ter que ir a um museu para ver como é a extrema pobreza, porque podemos erradicar isso. Isso não é, na verdade, uma condição humana. Quando seres humanos forem livres

podemos eliminar a pobreza. O problema real no mundo não é a desigualdade de distribuição de renda; é realmente a desigualdade de distribuição de liberdade.

Portanto, temos que ser muito cuidadosos para não perdermos

a essência do que nos fez alcançar todo esse progresso. Começamos a ver em certos países que há uma pressão para se voltar ao controle do governo, propriedades estatais, mais legislação,

mais restrições para negócios. Isso, na verdade, vai prejudicar não só os ricos; na verdade vai prejudicar muito mais as pessoas comuns nas sociedades.

Isso é uma tendência muito perigosa com a qual temos que ter muito cuidado.

Então, começamos com certas crenças sobre negócios. E começamos com a ideia: qual é a história dos negócios no mundo popular? O que as pessoas dizem? Negócios se tratam de egoísmo, de exploração

de pessoas comuns, e de ganância.

Já viram algum filme em que o líder do negócio é um herói? Nunca se vê isso, não é? O fato é que há muitos líderes de negócio heróis que mudaram o mundo, nossas vidas,

de forma dramática. Nenhuma outra instituição da sociedade na verdade faz isso. Então, essa é a narrativa popular. E é reforçada o tempo todo; através de filmes,

livros, e todo tipo de notícias e mídia. Mas qual é a história real dos negócios?

Negócios são fundamentalmente bons. Porque criam valor. Um negócio que não cria valor não sobrevive, se tem uma sociedade de mercado livre.

Tem que criar valor, não só para clientes, mas, no fim, tem que assegurar que cria valor para os funcionários e para as comunidades, e até para os fornecedores; de outra forma, não farão negócio contigo.

Negócios são baseados na ideia de troca ética, voluntária. Se não for melhor para você comprar de mim, não comprará. Se não for melhor vender, não venderei. Se não for melhor trabalhar, não trabalhará.

Então, a ideia da troca voluntária é que as pessoas se juntam só porque é melhor para elas fazerem isso. E se está negociando um produto ilegal, isso é fundamentalmente ético.

Lembrem, negócios não têm poder coercivo. Não pode forçar alguém a comprar, a trabalhar para você. A única instituição na sociedade realmente que tem poder coercivo é o governo.

O governo pode te matar, te prender se fizer algo que ele não crê ser certo. E têm ocorrido abusos extraordinários de seres humanos por governos em nome do bem.

Nos negócios, não há isso, e só operam através de troca voluntária.

Isso não é para negar que há problemas. É claro que há problemas. E se olharem para o nível de confiança que as pessoas têm em negócios, ele tem diminuído significativamente nos últimos 30, 40 anos.

E isso é nos EUA. Pode-se dizer que é o lar do capitalismo global.

O presidente Herbert Hoover disse que o negócio dos EUA são os negócios. E ainda assim, nos EUA, olhamos para o nível

de cidadãos angustiados com negócios nos últimos 40 anos:

ele aumentou. O nível de confiança diminuiu significativamente. De fato, no ano de 2009, só 16% dos americanos confiavam em grandes empresas.

Mais pessoas confiavam no Congresso Americano do que confiavam no setor de negócios, o que nunca tinha ocorrido antes. É uma mudança extraordinária.

E temos que tentar entender por que isso está acontecendo. Negócios fazem muitas coisas boas. E no entanto, ainda assim, as pessoas não confiam neles, pouquíssimas confiam.

Esse é um problema fundamental. Se pensarem em qual é a consequência desse cinismo e desconfiança, quando as pessoas estão operando dessa forma, não podem ser criativas, inspiradoras. Se vai para o trabalho,

e está cínico, desconfiado e desengajado, não se importa com o que está fazendo; pode realmente criar grandes avanços? Pode criar novas ideias que mudarão vidas para outras pessoas?

O fato é que precisaremos ter mais inovação do que nunca no futuro. Não podemos continuar a fornecer prosperidade à humanidade. Há ainda 3 bilhões de pessoas vivendo com menos de US$3 por dia.

Então, tivemos progresso, mas de nenhuma forma podemos dizer 'missão cumprida'. Há tanto mais a ser feito. Mas não pode ser feito da mesma forma. Não podemos fazê-lo usando as abordagens que usamos no passado.

Se fizermos isso, destruiremos o planeta e a sociedade. Precisamos de novas formas de fazer tudo. Para isso, precisamos de todas as capacidades humanas que possuímos.

E isso não acontece se as pessoas estão cínicas e desconfiadas. Então, esse é um problema urgente. Todos nós estamos pagando o preço por isso. E precisamos resolver isso, precisamos descobrir como mudar

para um jeito diferente de ser.

Esse homem inventou algo em 1989 que mudou as vidas de todos nesse salão, e quase todos no planeta. E no entanto, a maioria das pessoas não sabe quem ele é.

Alguém sabe? Agora é também o 25° aniversário da invenção da Internet.

Tim Berners-Lee inventou a Internet em 1989. Ele inventou o 'www', o '.com', 'url' e 'htt'.

Todas essas letras agora parecem o idioma inglês normal. Tudo isso saiu da cabeça dele.

Isso mudou o mundo? Argumentaria que ele teve um impacto maior nas vidas de mais pessoas nesse planeta do que qualquer outro ser humano,

talvez nos últimos 100, 200 anos. Por quê? Porque a pessoa comum hoje tem acesso a mais informação instantaneamente, na ponta de seus dedos, qualquer hora, qualquer lugar, de graça;

até se comparada ao bilionário mais rico do mundo há 20 anos. É uma mudança extraordinária.

No outro dia, eu tinha uma pergunta, e minha filha rapidamente procurou, e dentro de 2 segundos, ela me deu a resposta. E então, ela me perguntou: "Pai, o que fazia antigamente?"

"Quando tinha uma pergunta, o que fazia?"

E eu pensei e disse: "Não sei o que fazíamos, acho que só nos virávamos a noite toda, não conseguíamos dormir, ficávamos preocupados, e talvez então desistíamos e íamos à biblioteca..." Quem sabe.

Vivíamos na ignorância. Ignorância maravilhosa, não é? Mas hoje somos extraordinariamente informados. Não há nada que não saibamos, se quisermos saber. Podemos saber o que aconteceu há 5 mil anos,

e o que aconteceu há 5 minutos em qualquer lugar do mundo. Está tudo lá. E nada como isso remotamente existiu em qualquer lugar do mundo, em qualquer época na história humana. Então, essa é uma mudança enorme

pela qual passamos.

Então, essas são muitas mudanças, e a última da qual quero falar é essa ideia de consciência.

O que significa ser mais consciente? Usamos essa expressão: capitalismo consciente. O que isso significa?

Sabe, nossa jornada inteira como seres humanos nesse planeta pode ser descrita como uma de gradualmente acordando. Consciência significa estar mais atento, mais acordado;

ver a realidade como verdadeiramente é.

Pela maior parte da história humana tínhamos a visão bloqueada, só estávamos focados no imediato, curto prazo e próprio interesse. Porque se tratava só de sobrevivência para maioria de nós.

E hoje estamos tirando essa visão bloqueada, nos distanciando e vendo o panorama maior. Estamos vendo não só as consequências das nossas ações aqui,

mas as consequências das nossas ações em todos os outros lugares. E quando começamos a entender isso, começamos a assumir responsabilidade maior pelas consequências das nossas ações.

Começamos a ter uma noção de certo e errado mais afinada.

Então, há 150 anos nos EUA havia escravidão. E lutamos uma guerra brutal para eliminá-la. Mas muitos outros países também têm escravidão.

E todos eliminaram isso lentamente. Mas se voltar na história humana 10, 15 mil anos, toda civilização que já tivemos tinha alguma forma de escravidão,

era vista como uma condição humana normal. E hoje, não há nenhum país no mundo que legalmente aprova isso.

É uma mudança enorme. Há 100 anos nenhuma mulher nesse mundo podia votar. Pensem nisso. Havia, na verdade, só 2 ilhas, a Nova Zelândia e uma dessas ilhas pequenas onde as mulheres tinham o direito de votar.

Mas era só. Nos EUA, foi em 1920. Na Suíça, em 1971! Podem acreditar? Que até 1971 as mulheres não tinham o direito de votar na Suíça? E eu estive lá há 3 anos e disseram: "Acabamos de ter uma eleição,

e agora há mais mulheres no governo do que homens." É uma mudança rápida acontecendo. Há 75 anos ainda tínhamos colonialismo, o que é uma outra forma de escravidão.

A Índia era uma colônia Britânica há 75 anos. Há 50 anos ainda tínhamos segregação nos EUA: negros aqui, brancos lá. Há 30 anos tínhamos abuso de animais, degradação ambiental e trabalho infantil;

todas essas coisas eram legais e aceitáveis. Há 20 anos ainda havia apartheid na África do Sul. Há 10 anos nenhum estado nos EUA permitia casamento gay. Desde ontem, há 36 estados

que permitem isso.

Essas são todas barreiras que estão caindo uma por uma, são todas injustiças que estão sendo corrigidas, são todas indicadoras da consciência humana aumentando,

de uma noção melhor de certo e errado. E essa jornada continuará. Estamos fazendo coisas hoje para as quais olharemos em 10, 20, 30 anos e diremos:

"Uau, como pudemos nós, seres humanos civilizados, permitir isso?" Há muitas coisas para as quais poderíamos apontar. É também verdade que estamos vivendo na época mais pacífica na história humana.

A maioria das pessoas não percebe isso. Se olharem para as notícias, parece que tudo está terrível, e há tanta violência, etc. O fato é que temos menos violência hoje do que antes.

Olhem um livro de Steven Pinker: "Os Anjos Bons da Nossa Natureza". Estamos vivendo no período mais pacífico da história humana, de longe.

Há menos violência em 1995, em 99% comparada ao normal histórico. Há menos pessoas sendo mortas. Não tem havido nenhuma grande guerra nesse planeta por décadas, agora, entre grandes países, poderes.

Há pequenas brigas, claro, aqui e ali. Há menos pessoas sendo mortas pelo terrorismo. Há muito menos pessoas sendo mortas por assassinato.

Quando me mudei para Nova Iorque nos anos 80, havia 4 mil assassinatos por ano acontecendo em Nova Iorque. Hoje diminuiu para algo como 350.

É uma redução de 90% em apenas pouco mais de 20 anos.

E isso é verdade em muitos outros locais. Há menos violência nas escolas, nos lares. A violência doméstica diminuiu também. Por quê? Estamos nos tornando seres mais conscientes.

Recorrer à violência é uma reação animal. Não resolve nada, planta a semente para mais violência ocorrer.

Estamos começando a ficar acima disso. E é claro, somos mais inclusivos, estamos reconhecendo o poder da diversidade, e o Brasil é um belo exemplo de inclusão.

E estamos aprendendo a viver em harmonia com a natureza. Esses são todos indicadores da nossa consciência aumentando. Então, agora se colocarem todos esses fatores juntos,

todas as coisas que mudaram: falei sobre revoluções tecnológicas, demográficas; há mais significado e propósito, o aumento de valores femininos, a diminuição da violência, a consciência aumentando; todas essas coisas juntas

e muitas delas acontecendo apenas nos últimos 20, 30 anos, o fato é que quase tudo mudou. Há uma peça em que um personagem diz: "Essa é a melhor época possível para se viver,

e quase tudo que pensava que sabia está errado."

Uma porta como essa só se abriu 2 ou 3 vezes desde que começamos a andar sobre 2 pernas.

E temos que examinar tudo, como Lincoln disse: "Os dogmas do passado silencioso são inadequados ao presente tempestuoso.

Quando nosso caso é novo, temos que pensar de forma nova, e agir de forma nova." Então, isso é verdade em todos os setores: no governo, na saúde, educação, e certamente no mundo dos negócios. Então focaremos um pouco em negócios agora.

O que isso quer dizer para os negócios? Quando tudo isso mudou, como temos que pensar de forma diferente sobre a instituição de negócios? O que será necessário para empresas não só terem sucesso,

mas, na verdade, prosperarem? E para possibilitarem prosperidade humana às suas voltas? Elas reconhecem que todos os participantes:

clientes, funcionários, fornecedores, comunidades, investidores, agricultores; estão todos ligados nesse sistema interdependente, onde o bem estar de cada um está ligado ao bem estar dos outros;

onde se o cliente está bem, mas os funcionários não estão, bem, isso não é sustentável. Se tudo com o que nos importamos são investidores, e estamos espremendo nossos funcionários e fornecedores,

isso não vai funcionar. Por fim, isso matará o sistema em qualquer sistema interdependente e interligado. A menos que pense na prosperidade do todo, matará o sistema.

É como nosso corpo humano. Uma infecção que pego em um dedinho pode matar o sistema inteiro, a não ser que preste atenção nela.

Então, o sistema todo é importante. E temos que pensar em criar soluções onde todos saem ganhando, todos os participantes. Em toda decisão que tomamos,

não podemos estar sistematicamente trocando o bem estar de outros participantes pelo benefício de um participante. Isso é o que normalmente negócios, escolas de negócio

e a maioria de meus colegas ensinam: tudo se trata de maximização da riqueza do acionista. Todo o resto é secundário. Temos que cortar custos sempre que pudermos,

maximizar margens e ganhar o quanto dinheiro for possível para acionistas. Essa é a abordagem errada para se pensar sobre negócios. Isso, por fim, destrói o negócio,

se pensar nisso dessa forma. E, na verdade, também ganha menos dinheiro, se jogar assim. A WholeFoods, uma das varejistas melhores sucedidas nos EUA

em termos de desempenho, não faz isso espremendo ninguém. Faz isso ao criar valor extraordinário para todos os participantes. Podem ver alguns dos outros elementos ali: níveis extraordinários de transparência,

não há muito dinheiro gasto com marketing; não precisa gastar muito dinheiro com marketing quando comanda um negócio como esse.

E possui um limite de salário. Então, o maior salário na WholeFoods não pode exceder em 19 vezes o salário médio. Só para comparar, em outras empresas de capital aberto nos EUA

essa proporção é de 400 para 1. No Walmart é em torno de 1100 para 1. Na WholeFoods é 19 para 1.

As pessoas na linha de frente são pagas melhor que a média, as pessoas no topo são pagas modestamente comparadas aos seus colegas em outras empresas.

Porque quer líderes que se importam com mais do que só dinheiro. Se só usar dinheiro como uma forma de atrair líderes, obterá líderes que só se importam com dinheiro.

Não se importam com as pessoas, com o propósito. Contentemente sacrificariam as pessoas para atingir os números. Precisamos de líderes que, de fato, estejam dispostos a sacrificar números

para proteger as pessoas. Precisamos de líderes que se importem com o propósito da organização, que não são gananciosos por mais e mais, porque não há fim para esse jogo.

Se isso é tudo com o que se importa, nunca será feliz. E tão pouco será um líder inspirador para qualquer outra pessoa na organização. Então, novamente, quer líderes que tenham paixão, propósito e serviço para as pessoas.

E são bem pagos, mas não se trata só de dinheiro.

O fato é que é importante como ganha dinheiro. É importante que negócios sejam lucrativos. Mas é muito importante como esses lucros são ganhos.

Se esses lucros são ganhos prejudicando pessoas, espremendo pessoas, criando externalidades, em outras palavras, colocando fardos na sociedade, bem, isso não é um negócio de criação de valor, isso é um parasita

que está sugando a vida da sociedade. Temos que mudar isso, temos que olhar para como ganhamos o dinheiro. Porque temos grandes desafios: 7 bilhões de seres humanos.

Talvez 9 bilhões em algumas décadas. Temos desafios em todas as áreas: água, alimento, ambiente, e mais; todo tipo de coisa. Há grandes desafios, mas também

há uma grande consciência desses desafios e a capacidade de fazer algo a respeito. Muitas das respostas já estão por aí conosco. E o resto delas está dentro de algum ser humano em algum lugar.

E temos que descobrir como desencadear tudo isso. E a forma como faremos isso, eu creio que é através do setor de negócios. Não através do governo, de ONGs.

Mas o único jeito de fazer isso nos negócios é criando negócios que sejam, de fato, impulsionados por uma noção de maior propósito,

que pensam em criar valor para todos os participantes; e mais importante, que operam com uma mentalidade de amor e cuidado. É aí que o espírito humano prosperará. E é aí que a criatividade humana

abordará e solucionará todos os desafios e trará maior prosperidade a todos nesse planeta. Muito obrigado pela sua atenção hoje.