Transcrição:
Clique na frase para navegar pelo vídeo

O que agrega valor a uma empresa?

- Valor em uma companhia, não importa onde ela esteja inserida, vem da sua capacidade de gerar ganhos e fluxo de caixa com relação ao tempo, isso é basicamente de onde o fluxo de caixa de uma empresa retira seus dados.

- Ótimo, mas quais são as ferramentas usadas para deteminar o valor de uma empresa? - Existem algumas ferramentas que podem ser utilizadas. Uma é você estimar como esses fluxos de caixa serão

e o quanto pagaria por esses fluxos de caixa hoje. Isso se chama "fluxo de caixa descontado", ou "avaliação intrínseca". Outra ferramenta é analisar o que outras pessoas estão pagando

por algo similar, isso é chamado de "precificação" ou "valorização relativa". Então você olha pessoas usando múltiplos e comparando suas empresas a outras, e tentando aparecer com um valor baseado em como outras pessoas valorizam suas empresas.

- Quais são os maiores desafios ao analisar valorização de uma empresa? - O maior desafio acho que é lidar com o seu próprio desconforto em relação ao futuro, seres humanos não ficam confortáveis com incertezas,

queremos precisão. Especialmente se você vier de uma área da engenharia ou matemática onde, ao fazer algo certo, se obtém respostas exatas.

Em valorização é preciso aceitar o fato de que, não importa o quanto você tenta, ou quão grande seja a base onde você a construiu, no fim do processo, você obterá números do quais não está certo,

dos quais você está incerto. E você precisa estar bem em estar errado. Falo para as pessoas: "Você estará errado 100% das vezes."

E se você se abate ao estar errado, não conseguirá estimar valores por muito tempo. Se quer estimar valores, precisa ser complacente com o fato de que, se está tentando prever o futuro, você está brincando de ser Deus.

E você não é Deus, você estará errado, e está tudo bem. - Quais são os erros comuns cometidos ao investir no mercado de ações?

- Acho que o maior erro que cometem é quando se tornam muito gananciosos. Querem investir no mercado de ações para ficarem ricos. Você não investe no mercado de ações para ficar rico,

você investe nesse mercado para preservar sua riqueza. Qualquer poupança que tiver ao trabalhar, sendo um médico, advogado ou engenheiro, o mercado de ações não é um instrumento para que você fique rico,

se você fica rico, deveria enxergar como um bônus, não é algo tão corriqueiro. Ao tentar ficar rico, você se torna ganancioso. E ao se tornar ganancioso, você acaba tentando fazer coisas que não deveria.

Então acho que o maior erro que os investidores cometem é pensar que o mercado de ações é como uma loteria. Que se eles conseguirem investir naquelas ações que tiveram sorte,

seu dinheiro duplicará, e acho que essa é uma posição muito perigosa para começar seu investimento. - Recentemente, uma grande consultoria internacional, Standard & Poor's,

fez um downgrade nos títulos de crédito do Brasil, o que você tem a dizer a respeito disso? - Houve também um downgrade dos Estados Unidos dois anos atrás,

essas coisas acontecem. Especialmente quando os governos gastam mais do que arrecadam, esse é o coração do problema.

É fácil culpar o mensageiro, dizer que é culpa do mercado, dos swaps de risco de incumprimento (CDS), que é culpa da S&P... Não é culpa da S&P que os EUA entraram em crise em 2012,

mas sim que eles não conseguiram se organizar. Acho que as agências de rating refletem o fato de que, se você está tendo dificuldades com seus orçamentos e seus déficits,

elas precisam refletir isso, é seu trabalho. E acho que ao invés de reclamar da agência de rating, é preciso colocar a casa em ordem.

Se é esse o problema, você precisa colocar seus orçamentos novamente na balança, e se não o fizer, não se surpreenda... E lembre-se de que a agência de rating não é a primeira a reconhecer isso,

o mercado reconhece tudo isso em média seis meses antes da agência de rating. A estrutura do Brasil, se você analisar o mercado de CDS e o estrutural, tem se ampliado no último ano.

Então, o mercado reconhece que aí tem um problema, e finalmente as agências de rating divulgam que chegaram ao mesmo ponto de vista. Portanto, eu não entraria em pânico, não é o fim do mundo,

o mercado não acabou quando os EUA entraram em crise há dois anos, acho que a chave é olhar para si mesmo e buscar como melhorar para nos tornarmos um mercado mais saudável e uma economia mais saudável.

Acho que é perigoso para os investidores se manter na sua própria economia. E isso vale para os investidores americanos também, só porque você está em uma economia grande e vibrante,

não quer dizer que todo o seu dinheiro deve estar em ações de empresas americanas. E você nem precisa sair do Brasil para investir em outros países. Se você investe na Embraer, está investindo fora do Brasil,

pois eles obtêm muito das suas receitas fora. Portanto, seu portfólio precisa estar balanceado. E estar equilibrado não quer dizer que você estará protegido em uma crise,

no último trimestre de 2008, não importa o que você tivesse em seu portfólio, você perdeu 25% do seu dinheiro. Mas ainda assim você tem, através do tempo, um trade-off de retorno e riscos melhores.

- Os brasileiros têm receio de investir no mercado de ações por conta do risco atual. Que conselhos você daria a alguém que deseja investir?

- Acho que a resposta mais fácil é dizer que isso se dá pelo risco atual, o mercado brasileiro sempre foi um mercado protegido, pois mesmo quando estava bem, eram apenas 60 mil pessoas investindo em ações,

em uma população de 160 milhões de habitantes? A questão que precisa ser feita, mas muitas pessoas não querem fazer, pois coloca sob o holofote o modo com que as empresas no Brasil são estruturadas,

é: por que os investidores no Brasil não confiam seu dinheiro em ações? E te dou uma razão. Quando você investe dinheiro em ações, você é tecnicamente, em parte, dono,

e se sou parte-dono de uma empresa, quero ser tratado como tal. Mas quando invisto na Vale, meu aluno de 2000 é um CFO da Vale, adoro a empresa, adoro...

Mas quando invisto na Vale - vamos encarar os fatos - tenho zero controle de como a empresa é dirigida. E falo isso a respeito de muitas empresas brasileiras.

As empresas brasileiras são dirigidas por grupos estruturados fechados de pessoas ou entidades, o resto das pessoas, que compram ações da empresa, ficam de fora.

Elas podem ter acesso aos dados, mas não interferem em como a empresa é dirigida. Isso não é uma maneira de construir um mercado igualitário, se você quer equidade, se quer que isso esteja profundamente enraizado,

é preciso fazer com que os acionistas se sintam parcialmente donos da empresa, que quando eu compre ações da Coca-Cola, me sinta parcialmente dono da Coca-Cola. E acho que não é só no Brasil, muito investidores de mercados emergentes

não se sentem como donos, e sim como uma obrigação glorificada para o meio acionista, que ao invés de um cupom, recebe dividendos. E se você faz essa comparação - vamos encarar os fatos,

uma obrigação sempre parece muito melhor que uma ação. Você tem dividendos muito maiores. Acho que isso é uma parte do problema,

os investidores não confiam que as empresas os escutaram. E as empresas não tratam os investidores como donos. - Estamos vendo uma nova onda de empresas virtuais, IPO (oferta pública inicial),

como Facebook, Kind Digital e Ali Baba. Mesmo os autores precificando-as em 2 bilhões de dólares,

as ações do Facebook cresceram mais do que 80%. - Certo. Você acha que há excesso de euforia no mercado financeiro

como essas empresas de oferta pública inicial? - Olha, tento não julgar se os mercados são racionais, irracionais, eufóricos etc.

Apenas me pergunto se estaria confortável em comprar essas empresas. E a resposta é que investimento é uma decisão pessoal. Eu não me sinto confortável em comprar ações de empresas de mídia social,

porque não vejo substância nelas. São empresas excelentes, mas não enxergo a capacidade... Há um grande problema: todas essas companhias se baseiam em propagandas,

esse é o coração do negócio se você analisa empresas como Facebook, Twitter ou Google.

E o problema é que esse mercado não é grande o suficiente para sustentar o que as pessoas estão percebendo... A verdade é que se todas as empresas nos EUA investem no Twitter,

o que acha que o Twitter fará no futuro? Pergunte aos investidores do Facebook, o que ele faria no futuro?

Daí você junta tudo isso ao prognóstico, o que há de receita coletiva em 10 anos, em 2024? É muito maior que o mercado inteiro.

Alguém não tem feito bem as contas. Mas, não estou horrorizado com isso, essa é a natureza de setores jovens, as pessoas precificam, não estimam valores.

O que quero dizer com isso é que por causa da incerteza, eles não tentam por números, ficam com medo. E o que usam, ao invés disso, é algo simplório.

Atualmente, empresas de mídia social? Acho que têm um preço alto com relação ao tempo de mercado.

Certo? Uma das razões pelas quais as pessoas gostam de Candy Crush é que o número de pessoas que o jogam é de dezenas de milhões, o número de downloads, é isso que cria um alto valor.

A razão pela qual todos gostam do Facebook é que existem 1,2 bilhões de usuários. O fato de que esses usuários ainda não se reverteram em receitas,

renda e fluxo de caixa? Não querem pensar sobre isso. Isso os assusta. É a natureza humana se você se assusta, ou está inseguro ao se prender a algo

que é mais simples de se focar. A analogia que dou é: vamos supor que você quer comprar uma casa,

e vai a um bairro onde nota que as casas têm muitas chaminés.

Se você vê que são ótimas, pois têm salas amplas etc. Após certo tempo, você decide precificar a casa a partir do número de chaminés, e multiplicá-lo por um milhão, logo, se há quatro chaminés, serão quatro milhões,

oito chaminés... Verá pessoas construindo casas com muitas chaminés, pois sabem que esse é seu foco. Acho que o mesmo está ocorrendo com a mídia social,

as pessoas estão tão focadas no número de usuários para precificar as empresas, que é isso que as companhias estão buscando. Por qual outra razão o Facebook compraria o Whatsapp?

É uma companhia de 2 anos, mas o que ela traz são 40 milhões de usuários, e é isso que o Facebook é.

Entendo o porquê do Facebook fazer o que fez,

mas tudo isso vem desse problema principal que os investidores estão incertos, eles estão tentando encontrar maneiras de precificar essas companhias, e essa forma de precificá-las pode não ter uma forte relação com valor.

- Você acredita que esse cenário resultaria em uma nova bolha .com?

Se acontece, acontece. Como disse, não costumo chamá-los de bolhas porque é arrogante pensar que você... porque seria isso, como se eu estivesse certo e o mercado errado,

mas se for uma bolha e depois explodir, o que acontece? Não sou uma dessas pessoas que fica irritado por causa de bolhas, as bolhas, na verdade, refletem a natureza humana,

que é de esperar por coisas que estão fora do seu alcance. Pergunto às pessoas se elas querem viver em um mundo controlado por estatísticos, pois estatísticos olham para as probabilidades e dizem:

"Você pode fazer isso, ou aquilo." Se eles governassem o mundo, ainda estaríamos em cavernas. Pois diriam para não mexer com fogo, que é muito arriscado.

Não sair da caverna porque é arriscado demais. Os humanos sempre avançaram porque há alguns deles que alcançam além do necessário, que tentam o impossível, e é isso que as bolhas são, certo?

E toda bolha deixa uma impressão. Gostando ou não, muda a forma com que vivemos, você falou da bolha .com como uma coisa ruim, mas ela muda a forma que vivemos.

A forma com que fiz minha reserva no avião foi online, o hotel também, o meu carro também foi online. A mídia social mudará a forma com a qual vivemos.

Na verdade, já mudou. Como interagimos... Meus filhos não mandam e-mail. Eles mandam mensagens pelo Facebook ou pelo Twitter.

E vai mudar a forma com a qual vivemos. Então não sou depressivo com as bolhas como outras pessoas, porque é a natureza humana, nós vamos além,

nós somos punidos com promessas que nunca conseguiremos realizar, e então vamos além outra vez. Então é isso.

- Você é considerado um dos professores mais importantes do mundo, qual é a sua receita para tal? - Vou a lugares que podem causar impacto.

O que quer dizer que vejo meu trabalho como professor como uma forma de mudar a forma das pessoas pensarem. E quanto mais pessoas pensarem que posso, mais me aproximo de cumprir minha missão.

E a única razão pela qual sou mais impactante que outras pessoas, é que uso toda ferramenta tecnológica que esteja disponível para mim para alcançar as pessoas.

Se ensino em uma sala para 200 pessoas, tudo que posso mudar são 200 pessoas. É isso, e mesmo se fosse o melhor professor do mundo, era tudo que afetaria. Se ensino 200 pessoas, e escrevo um livro sobre o que ensino, impacto aquelas pessoas,

se dou aula para 200 pessoas, e não escrevo um livro, mas posto o conteúdo online e 500 mil pessoas por dia têm acesso àquilo, estou afetando 500 mil e 200 pessoas. Acho que impacto é uma escolha,

e os professores precisam se perguntar o que querem fazer. Enxergo a minha missão, enquanto professor, como uma forma de mudar o que as pessoas pensam, ter um impacto em como elas pensam,

e, se tenho isso definido, preciso alcançar tantas pessoas quanto puder com essa missão. - Esse é um bom momento para investir no mercado de ações?

- Para mim, o melhor momento para investir é agora, porque o maior - e eu diria isso a qualquer hora e em qualquer lugar - porque o que acontece quando as pessoas esperam pelo momento certo

é que elas esperam demais. Elas esperam as coisas se estabelecerem, as incertezas desaparecerem... "Quando o problema russo acabar, eu investirei."

Mas quando o problema russo acabar, haverá um argentino, um venezuelano, um problema grego, turco... Não pode esperar o mundo se estabelecer, porque o mundo não vai se estabelecer.

Você precisa tomar decisões no mundo em que está agora. E investir é um grande feito, você não investe em uma ação, é possível escolher aquelas, em qualquer época, que satisfaçam suas necessidades.

Então o meu conselho para as pessoas é que não esperem pelo momento certo, porque o momento certo é agora.