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Esse será um dia muito incomum para mim, pois geralmente quando faço esses seminários de avaliação no Brasil tendo a fazê-los muito específicos e muito detalhadamente.

Coisas como custo de capital estimado, fluxo de caixa, crescimento, e foi o que fiz ano passado. Esse ano decidi que farei algo mais macro.

Vocês vão me perguntar o que é uma avaliação macro, mas isso tem mais a ver com a filosofia que guia a avaliação do que algo específico.

Acho que se você entender a filosofia, entende as especificidades também. Hoje vou fazer muitas coisas diferentes no curso do dia. Quando cheguei a NYU,

eles me deram uma disciplina para ensinar:

uma disciplina chamada Análise de Segurança, era uma aula de tradição muito antiga, uma aula que começou nos anos 50

por um homem chamado Ben Graham na Universidade de Columbia. Ele ensinava para dez pessoas.

E nos anos 50 ele teve um estudante que hoje é um dos maiores investidores do mundo, o Warren Buffett.

Essa disciplina existia há muito tempo, e eles me deram.

Olhei e disse: "Não quero ensinar essa disciplina, é muito entediante." E em 1996 ela era como uma coleção de tópicos, 3 semanas em ações, 2 semanas em estrutura, 2 em mercado.

E eu disse que não queria ensinar aquilo, queria ensinar "Avaliação", em 1996.

Na reunião do departamento eu disse que gostaria de ensinar avaliação, e o diretor disse: "Não tem como. Não há material sobre esse assunto para ministrar uma aula."

E sabem, em 1996, ele estava completamente certo. Não havia livro em avaliação. Não havia sequer artigos, ou pesquisas, em avaliação.

Não havia nada.

Ele disse: "Não faça isso porque você não vai consegue dar essa aula." Mas eu realmente queria ministrar essa aula...

Descobri muito cedo em minha vida acadêmica que se você quiser fazer algo na universidade,

a melhor forma de fazê-lo é de forma subversiva. Não peça permissão.

Foi isso que fiz, disse que ok, que ensinaria Análise de Segurança,

daí comecei a ensinar avaliação, ao invés. Eles não sabiam o que eu fazia na sala de aula, poderia ensinar culinária que eles não saberiam.

Sabem quanto tempo levou para que eles descobrissem?

Em 2008, 22 anos depois, recebo uma ligação do escritório do reitor,

eles disseram: "Ouvimos dizer que você está dando aula de Avaliação." E respondi: "Sim, tenho feito isso há 22 anos." Eles disseram: “Mas não está escrito em nenhum lugar!"

Eu disse: "Isso é porque eu vim alçando as disciplinas que vocês me dão e transformando em aulas de avaliação." E farei uma confissão sobre essa aula,

quando comecei a ensinar, estava apenas uma semana a frente da minha aula.

Eu preparava a aula para a semana seguinte, o que eu tinha que fazer porque eu não tinha nada, estava no rascunho.

Tudo que escrevi e fiz em avaliação aprendi enquanto ensinava.

É aqui que entra a avaliação. Ela te permite obter aquelas respostas da empresa e convertê-las em números.

Essa é a primeira pergunta, quais os fluxos de caixa nos ativos existentes? Você me mostra os seus números e é aí que começa. Esses são meus números de base.

Me pergunta o que é valor do crescimento, vou te mostrar em dois aspectos: ele permite a minha receita operacional a crescer,

e isso é ótimo, e a parte ruim é quanto você deverá reinvestir para crescer, isso aparece nas despesas de capital, no capital de trabalho,

e números que acrescento. O efeito negativo vem do crescimento criar ou destruir valor. O risco aparece em um lugar e apenas em um lugar,

que é a taxa de desconto.

Isso torna as pessoas desconfortáveis. Não há outro lugar nesse fluxo para colocar o risco. Vamos falar então das limitações disso,

porque você se pergunta se sofre risco de nacionalização, se sofre risco de terrorismo, ou se sofre risco de aflição, riscos regulamentares?

E na avaliação de desconto de capital o único risco está na taxa de desconto.

E a resposta da sua empresa madura vai levar a quando parar de estimar fluxos de caixas e o quanto isso significa em valores. Toda resposta tem um lugar na minha avaliação,

e eu deveria estar apto a apontar cada resposta, e preciso saber fazer isso, pois se quiser mudar, sei onde está a resposta.

Isso é o que significa uma avaliação de desconto de fluxo de caixa, não é uma equação, não é uma tabela, é responder perguntas para perguntas básicas,

e responder questões básicas para o seu negócio.

O crescimento da receita está muito baixo mundialmente, essa é a primeira parte desse problema. A segunda é que as margens de operação dos negócios são enormes.

A margem operacional em média é de aproximadamente 4,5%, e cerca de 25% das empresas de todo o mundo perdem dinheiro, então não há crescimento de receita e margens baixas.

Aí está o problema. A quantia que as grandes empresas precisam reinvestir para manter esse baixo crescimento está aumentando a cada ano.

Por exemplo, porque precisam reinvestir se não estão vendendo mais carros? Você comprou um carro novo recentemente? É metade computador, metade carro. O que as empresas grandes precisam fazer é reinvestir em tecnologia,

olhe em uma grande empresa quanto ela está gastando em P&D. Você ficará surpreso. Digamos que você tem baixo crescimento de receita,

baixas margens e reinvestimento crescente... Você sabe o que isso significa.

Péssimos retornos de capital, e em 9 dos últimos 10 anos, em todos os negócios coletivamente, o retorno de capital das grandes empresas tem sido menor que os custos.

Esse é o negócio em que está a Ferrari, por exemplo. É uma má notícia. Aqui vão as boas...

A Ferrari não é apenas uma grande marca de carro,

se você parar para pensar, a Ferrari é um carro incrivelmente impraticável. Para que você usa uma Ferrari? Imagine ir ao mercado com a sua Ferrari,

você nunca estacionaria o carro, você teria medo. Ou então compartilhar um carro, dá para compartilhar uma Ferrari? Quatro crianças para levar e você tem um assento,

todas empilhadas umas nas outras.

Uma Ferrari não é um carro, é um clube exclusivo. Só há uma razão para pagar por uma Ferrari, você quer ser o único dono de Ferrari da sua cidade.

Sabe como isso aparece? Em 2014, a pesquisa mais recente sobre a Ferrari, ela, enquanto empresa, vendeu 7225 carros.

Mundialmente. É isso. 7225 carros o ano inteiro.

Isso é provavelmente a quantidade de carros que a Volkswagen rejeita na sua linha de produção todos os dias.

Isso são muito poucos carros... Por que eles vendem tão poucos carros? Porque é assim que você preserva um clube exclusivo.

Nem tenho certeza de como você compra uma Ferrari.

Você entra na concessionária da Ferrari e eles provavelmente vão te pedir referências. Quantos bilionários você conhece?

Se você não conhece nenhum, melhor sair de lá.

Você não é parte do clube. 7225 carros.

Essa é a quantidade de carros que tem vendido por 30 anos, o número de carros não aumenta muito, e é super insensível às condições econômicas.

Em 2009, quando a metade do mundo vivenciava quedas nas vendas, a Ferrari vendeu o mesmo número de carros que em 2008, por quê?

Porque as pessoas que compram Ferraris são tão ricas que eles nem sabem o que é uma economia em recessão,

ou em recuperação.

É claro, também é o carro favorito de jovens de 23 anos muito ricos que querem fazer coisas estúpidas. "Aquele não é o seu filho em uma Ferrari quando sofreu o acidente?"

É quase como se você quer ver alguém em problema, dê uma Ferrari,

e aí deixe-o se perder. É um clube exclusivo que não vende tantos carros, essa é uma notícia péssima, mas aqui vão as boas notícias.

As margens - se lembram das margens do negócio automobilístico, em 4,5% - a margem operacional da Ferrari é de 18,2%. É 90-50% do negócio.

Por quê? Pois cobram preços altíssimos, e não gastam nada com publicidade. Nenhum. Nunca vi uma propaganda da Ferrari, você já?

A única propaganda é indireta, em uma corrida de Formula 1, onde tem a Ferrari ali do lado. Essa é uma empresa que não gasta nada em propaganda,

em suas grandes margens. Então há baixo crescimento de receitas e margens altas.

Não investe muito porque não vende muitos carros, na verdade, usa a mesma fábrica que usa desde 1996, com capacidade suficiente para produzir oito ou nove mil carros,

então não precisam investir tanto.

Sem crescimento de receita, margens altas, baixo reinvestimento. E por ter consumidores tão ricos, na verdade é uma empresa incomum na indústria do luxo,

que tem, na verdade, um baixo custo de capital pois as receitas são muito insensíveis ao que acontece ao redor.

O que vejo na Ferrari é um clube exclusivo com altas margens, baixo reinvestimento e baixo custo de capital.

Algum de vocês foi a uma agência de viagens ultimamente? Elas ainda existem?

25, 20 anos atrás se você quisesse comprar uma passagem de avião você precisaria ir uma agência de viagem, lembra deles? Vocês são velhos o suficiente para lembrar?

Havia um agente de viagens com um grande computador na mesa que estava virado apenas para ela ou ele. Você diria: "Quero ir para Miami.”

O agente buscaria no computador.. "Tem três voos.

Um parte à 1am, o outro a 1:30am e o outro sai às 2am." Nada saindo durante o dia, esses eram os únicos três voos, era pegar ou largar.

Custaria três mil dólares.

Que escolha você tinha? Não é como se você pudesse olhar na internet. Hoje, quando você faz uma reserva, você faz online, seus bilhetes são online,

e na verdade, a revolução .com mudou a forma que vivemos.

Agora falamos sobre a bolha da mídia social... Facebook, LinkedIn, isso é uma bolha?

Talvez sim. Provavelmente sim. Isso não me incomoda... Pois se existe uma bolha, é o que se espera de um grande mercado.

Existirá uma bolha de computação na nuvem? Sim, existirá uma bolha de computação na nuvem, mas outra vez, é assim que esses mercados se desenvolvem.

Você pode ter decisões racionais de indivíduos adaptadas ao processo coletivo, que é implosivo, pois nem todos podem vencer. Cada pessoa está sendo racional

dentro desse sistema igualitário, mas ninguém olha esses números e diz: “Isso não faz sentido."

Vou lhes contar dez coisas que funcionam para mim. Não estou sugerindo que irão funcionar para você, mas funcionam para mim em novas formas de lidar com incertezas.

A primeira é: "Menos é mais." Quando enfrentamos incertezas, reduzimos o número de itens estimados. Nunca avalio uma empresa com mais de 10 itens.

Quando enfrento incertezas, esses dez itens viram três ou quatro. Menos é mais. Segundo, ao seguir o processo de avaliação

procurando por pontos internos, coisas que te mostrem que algo está errado. Terceiro, há algumas micro suposições onde não vou perder tempo.

Como o quê? Como qual será a taxa de inflação no Brasil em dez anos? Não sei. E não me importo.

E aqui vai o porquê: enquanto eu colocar a mesma taxa de inflação no meu fluxo de caixa e desconto, estarei bem.

Há algumas microvariantes que realmente não importam, pode ser importante em algum ponto, mas enquanto houver compensação, não perderei meu tempo nisso.

Use love numbers.

Que love numbers são esses?

Você pega 100 números qualquer e os coloca em uma parte, você os arruma, tira e a média é precisa, certo? Nunca entendi isso.

Mas todo dia fico de joelhos e agradeço a Deus pelos love numbers. Esses números te darão uma resposta mais precisa de um número específico.

Não deixe que isso se torne receptivo a todos os seus medos.

O que isso significa? Você vai avaliar uma empresa e então se sente desconfortável. Então aumenta o desconto em 3%.

Meus terceirizados estão reclamando, eu aumento mais 2%. A taxa de desconto se torna esse número que você inventa porque está desconfortável.

Não é para isso que ela foi criada. Deixe-a fazer aquilo para o qual foi criada. Enfrentar a incerteza.

Darei uma das minhas ferramentas que acho mais valiosas. É chamada de assimilação de Monte Carlo. E vou lhes falar porque é quase arrepiante quando lido com incerteza,

pois consigo ver quão incerto sou

a respeto das minhas pressuposições. Agora vem a parte psicológica.

Se você é uma pessoa numérica, um engenheiro, um matemático, você busca precisão... Livre-se disso.

Você vai estar errado sabe quantos porcento do tempo?

100% do tempo. Nunca vi avaliação com uma previsão de receita e lucro que saiu exatamente como previ.

Em nenhuma companhia, nunca.

Estive errado 100% do tempo.

E sabe o quê? Estou bem com isso. Sabem por quê? Porque não preciso estar certo para ganhar dinheiro,

apenas preciso estar menos errado do que todos os outros. Lembrem-se disso, tira um peso enorme das suas costas. Acho que as pessoas buscam por respostas corretas,

elas procuram por precisão

quando isso não está no controle delas. E finalmente, se tudo que você faz é cometer erros,

você vai ficar bem. O que mata a avaliação é a definição, sabe definições? Você consistentemente superestima números ou subestima,

você impede o fluxo de caixa porque é conservador.

Isso sim é perigoso. Pois você toma apenas uma mesma direção. As pessoas pensam que se chegarem no lugar certo e fizerem a pergunta certa

tudo estará claro.

Você aprende avaliação no dia a dia, aprende lutando contra os problemas. E você tem que fazê-lo, são complementares,

você precisa descobrir uma forma de obter seu caminho de resposta e cada vez que o faz, você se sente empoderado para lidar com o próximo problema que aparece.

Então ao invés de procurar por respostas online, ou me mandar um e-mail perguntando qual a resposta para aquilo, pense em quão frequente você pensa na sua própria resposta para isso.

Você é bem vindo para me mandar a solução e perguntar se faz sentido. Eu vou dizer se gosto ou não gosto. Mas acho que é assim que devemos pensar em avaliação,

temos que pensar no processo de avaliação, e o que aprendemos daquele processo.

E por último, quanto mais você sai da sua zona de conforto, mais você aprende sobre avaliação. Vejo vocês amanhã, muito obrigado pela presença.