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No seu livro você conta como, quando estava escalando, percebeu que havia lugares que não podia voltar, que era somente de ida, a experiência.

Quando escalamos uma montanha, descobrimos alguns aspectos do alpinismo muito rápido.

Primeiro, há picos falsos. Toda vez que chego a algo difícil em minha vida, eu penso: "Isso é só um pico falso." As pessoas dizem: "Como faz tantas coisas?" E eu digo: "Olha, eu não encontrei nada difícil nos últimos 38 anos.

Nada." Então, eu achei que havia alcançado o pico. E uma vez que está escalando, o seu ângulo de visão não te permite enxergar que, quando chegar àquele pico, há mais montanha que não consegue enxergar.

Isso se chama "um pico falso". Mas, cada vez mais, os picos falsos te levam à uma parede que é mais íngreme. Porque fica cada vez mais íngreme.

E os últimos picos falsos, ou pico, nos levou à uma parede de quase 40 metros quase vertical.

E uma vez que começa a escalar, seu peito fica contra o gelo e a neve, está fazendo buracos com seus pés e com pequenos pedaços de alumínio para colocar suas mãos, sem luva, sem nada. E não há como olhar para baixo

porque não sabe onde colocar seu pé, então o único caminho é para cima. E o cara atrás de você está te empurrando, e não há volta também. Por que voltar? Eu preferiria cair e morrer, do que voltar e morrer sentado, sabe?

Então há um ponto em que não há volta, de nenhuma forma; por causa da escalada,

e por que deveria voltar para morrer? Há um ponto sem volta, em que só vai para frente. Você não tem o equipamento, não sabe o quanto falta,

a noite está chegando e precisa dormir, só agarrado à montanha. De onde tirou a força para fazer isso?

Eu gostaria de poder responder isso, Eduardo, com algumas palavras filosóficas, bem criativas e sábias, mas eu não sei, a única coisa é que fiz. Eu fiz e

eu estava pensando no meu pai, também, muito. Talvez emoções, talvez sentimentos lhe permitem ir além do que pode ir numa vida normal. Mas, eu sabia que meu pai tinha perdido sua família, sabe?

Ele não sabia que eu estava vivo. Tinha perdido seu filho, sua esposa e sua filha, em um acidente de avião.

E eu disse: "Ainda estou respirando, ainda estou vivo, vou continuar até parar de respirar."

E, eu estava com muito medo, muito medo, mas

o Roberto também me deu muita força, ele dizia: "Nando, você está respirando, vamos, Nando, vamos."

Então quando ele não ia, eu dizia: "Vamos, vamos." E você chegou naquele pico verdadeiro e, ao invés das terras verdes do outro lado, o que viu e qual foi sua decisão ali?

Há muitos momentos na vida que são importantes. Mas, os realmente importantes, os que mudam sua vida, não há muitos. Talvez três ou quatro. Quando nasce, quando conhece a mulher dos seus sonhos e faz uma família,

quando seus filhos nascem, quando cria seu primeiro sucesso na vida e então morre. Todas as outras coisas estão misturadas juntas e fazem uma vida. Mas, definitivamente os momentos decisivos na vida são muito poucos.

Um desses foi, para mim, na minha vida, quatro ou cinco momentos;

um desses foi quando cheguei ao pico e olhei para o outro lado. Achei que iria ver algumas árvores verdes, estradas de terra, talvez uma cabine no horizonte com fumaça,

e percebi que estava no meio das montanhas dos Andes.

E isso te muda. Eu não pude chorar porque estava com tanto medo que não conseguia chorar, não conseguia respirar, eu quase parei de respirar.

E eu só conseguia escutar o Roberto atrás de mim: "Você vê verde, você vê algum verde?" Até então, só tínhamos visto preto e branco e o céu. Não há cor, não há verde, marrom, azul; é somente como um filme em preto e branco.

"Você vê verde?" E eu via montanhas e montanhas, nada além de montanhas.

E eu decidi ali algo que pouquíssimas pessoas decidem na vida. A não ser que cometa suicídio, nunca sabe quando vai morrer.

E eu disse: "Roberto, eu não vou voltar, vou em frente. E vamos morrer. Sim, sei que vamos morrer, mas não vou voltar." E eu decidi como iria morrer. Eu tomei minha própria decisão.

Felizmente eu não morri, mas eu deveria ter morrido. Não há como termos sobrevivido, de nenhum jeito. O que tínhamos em frente aos nossos olhos era algo de um filme de terror.

Toda a terra está completamente coberta de neve e 360º de montanhas, e nada além de montanhas. Eu tomei aquela decisão em 30 segundos e comecei a descer aquela montanha.

Que outra decisão na minha vida posso comparar à essa? - Eu ia perguntar. Qual? E às vezes eu me deparo com questões, eu herdei uma empresa

que desenvolvi, nosso negócio de família, criei mais quatro empresas; nada que enfrentei nessas empresas pode se comparar com isso. Porque se fracassar e cometer o maior erro que puder em um negócio,

não se compara com o maior erro que pode cometer e então morre. Se perder sua empresa, o que acontece? Você vai fazer outra coisa. Se perde sua vida, não há nada.

Algumas pessoas dizem que é escuridão, ou vai para o céu.

Mas não há volta. Então eu não enfrentei, posso na verdade te dizer que o pior momento da minha vida foi quando alcancei o pico daquela montanha.

E então tudo está absolutamente errado e está morto. E então você chegou em um ponto onde via cada vez menos neve, e viu um rio e, de repente, o resgate parecia possível; o que aconteceu ali?

Porque acho que ali, você não podia ver, mas podia gritar, e o Roberto não conseguia gritar, estava muito fraco com sua voz, mas podia enxergar; o que aconteceu ali?

Depois que começamos a descer o vale, em torno de seis dias depois, não havia mais neve, então começamos a andar em xisto e rocha. Então no sexto dia encontramos um rio, a nascente de um rio.

Então dissemos: "Ok, a água desce, vamos seguir a água." Então seguimos o rio por quatro dias, e então estávamos ficando muito fracos, tínhamos caminhado 70 milhas, nas piores condições imagináveis,

eu perdi em torno de 37 quilos,

e na noite do décimo dia, eu estava de pé e o Roberto estava sentado à minha esquerda, e na verdade eu estava avaliando, e ele vê um homem do outro lado do vale, num cavalo. E disse: "Nando, um homem a cavalo!"

E eu olho, e em torno de 300 metros de distância, havia um homem a cavalo. Então começamos a gritar e gritar até que o cara parou, mas

as sombras da noite o cobriram, porque o sol já havia se posto no horizonte, então o perdemos de 10 a 15 minutos depois.

Mas na manhã seguinte ele ainda estava lá.

E eu fui até a margem do rio, e ele estava do outro lado do rio, mas não podíamos compreender um ao outro por causa do som da água. Então esse cara era um camponês que tinha muito bom senso.

Ele pegou uma pedra, colocou um pedaço de papel em volta, amarrou com uma linha e colocou um lápis. Então jogou isso além do rio e eu escrevi aquela mensagem fantástica que foi

o começo da operação de resgate. "Eu vim de um avião que caiu no Andes, sou uruguaio, tenho 14 amigos feridos no avião. Onde estamos? Por favor, precisamos de ajuda, onde estamos?"

Então joguei de volta para ele e ele voltou para sua cidade, estava por volta de dez horas de distância a cavalo da civilização mais próxima.

E eles trouxeram alguns caras a cavalo, e então chamaram helicópteros, e também temos que perceber que isso aconteceu há 38 anos. Não havia celular, Internet, todas essas coisas que agora são...

Hoje seria muito fácil, mas naquela era pré-histórica era muito difícil.

Eles foram finalmente resgatados e, 38 anos depois, temos o Nando hoje.

De que maneiras você está fundamentalmente diferente do Nando de 21 anos, e de que maneiras está similar àquele Nando de 21 anos?

Sabe, houve tantas vezes em que me perguntei: "Se agora sou o que sou por causa do que passei nos Andes, ou se fui capaz de sobreviver nos Andes por causa de quem eu era antes?"

E eu realmente não tenho uma resposta. A única coisa que sei é que não posso mentir para mim mesmo. A única coisa que sei é que aprendemos quando éramos muito jovens;

o cara mais jovem ali tinha 17 anos;

aprendemos o que as pessoas aprendem no fim de suas vidas. Se ler os melhores autores do mundo, Borges, ou Amado, eles escrevem:

"Se pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria de outra maneira." Então aprendemos aquela lição quando éramos muito jovens. Deveria mentir para mim mesmo e falar o que me ensinaram,

o que aprendi formalmente, o que às vezes não condiz com essas coisas, sabe? - Não se encaixa. - Não se encaixa.

Então eu tentei viver de acordo com o que aprendi lá. Eu amo coisas materiais, amo sucesso, amo sucesso nas minhas empresas, gosto de prosperar nelas.

Todas as cinco empresas, eu herdei uma, todas as outras quatro ainda estão funcionando. Eu produzo programas de TV, o primeiro cinegrafista que começou comigo há 28 anos, é meu cinegrafista-chefe agora numa posição muito importante na minha empresa.

Elas funcionam, mas não sou apegado ao sucesso.

Porque o sucesso não traz a felicidade que todos buscam. Qual o sentido da vida? - Qual é? - Qual é?

É sucesso? O que é sucesso? Então isso é muito complicado, sabe? Eu amo sucesso nos negócios, mas gosto de ser muito bem-sucedido com minha família. Então, às vezes as duas coisas não se encaixam, então é um equilíbrio e eu

acho que aprendi a gerenciar esse equilíbrio muito bem.

E eu não perco minhas conexões, é por isso que peço para as pessoas: não percam suas conexões, porque seus filhos crescerão,

as coisas acontecem muito rápido, todos têm medo do futuro, o que vai acontecer no futuro? Já chegou?

Eu perdi tudo. As pessoas têm medo de perder, eu também. Mas, perdi minha família, perdi meus amigos, perdi meu futuro e estava sentado a 4000 metros com uma camiseta

no meio dos Andes, a -35° C. 38 anos depois estou aqui. Então eu estive lá, com nada; sem afetos, futuro, dinheiro, estudos, nada. Então eu estive lá, perdi tudo, e voltei. Então não tenha medo de perder porque

voltará, ou algo acontecerá. Curta o presente, hoje.

O passado já se foi. Meu pai me deu uma frase fantástica.

Ele tinha perdido sua esposa, sua filha e seu filho. Quando voltei, ele disse: "Nando, se olharmos para trás,

a única coisa que conseguimos foi um torcicolo."

Muito pragmático, muito primitivo, mas muito verdadeiro. Muito obrigado, Nando, por estar conosco hoje.

Fico feliz, acho que sua mensagem é um alerta para todos nós.

Que desfrutemos de sucesso nos negócios, mas o verdadeiro sucesso está em outro lugar. Então muito obrigado por isso.