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Hoje teremos uma conversa com Nando Parrado. Nando é um dos 16 sobreviventes da tragédia dos Andes.

Seu avião caiu com todo o time de rugby em tour numa viagem do Uruguai para o Chile,

sua mãe e irmã morreram no acidente e ele com 16 outros sobreviveram após 72 dias nas montanhas, e 11 dias de caminhada através delas, liderada pelo Nando.

Muito obrigado, Nando, por estar conosco hoje. - Grande prazer estar aqui Eduardo. - Sua história é surpreendente.

Vamos começar compreendendo quem era o Nando antes do acidente. - 24, 23 anos? - 21. - 21 anos. Jogador de rugby. Quem era o Nando então?

Eu acabava de terminar meus anos de Ensino Médio, então fui por dois anos me preparar para entrar numa universidade, então eu estava no primeiro ano da faculdade, estudando economia

e jogando rugby no time nacional. Então eu era um cara comum, não muito bom aluno, bom atleta e um cara comum uruguaio. - Então, você estava indo jogar rugby no Uruguai e, de repente, a tragédia acontece,

sua mãe e irmã morrem no acidente e, depois de alguns dias de estar sumido, você

acorda, e o que vê? Eu convidei minha mãe e irmã para irem na viagem conosco, eu lhes dei um presente de amor porque queria que compartilhassem o fim de semana com o time

em Santiago, e infelizmente nem todas as coisas ocorrem como gostaríamos que ocorressem, então, caímos nesse avião, elas morreram no impacto, eu não morri no impacto, eu fiquei em um coma muito profundo por quatro dias.

E então eu acordei, e eu percebi que estava no meio das montanhas em um avião completamente destruído.

Muito tem sido dito a respeito da evolução da liderança. Quem eram os líderes naturais durante os primeiros dias após o acidente? - Acho que tivemos muita sorte porque uma das melhores coisas que tínhamos é que éramos um time antes.

Se isso tivesse acontecido num voo comercial, talvez as coisas tivessem sido bem diferentes. Mas, o Marcelo Pérez del Castillo

era nosso capitão, um cara fantástico, com o maior coração que já vi, um jogador de rugby fantástico, e 10, 15 minutos depois que o avião caiu, ele já era nosso capitão. Ele tomou todo o peso e responsabilidade sobre seus ombros, e

para um cara de 21, 22 anos, isso foi surpreendente, dadas as circunstâncias. Então ele foi um grande líder, e o coração de um líder foi demonstrado

naquelas circunstâncias, eu nunca vi nenhuma liderança tão bem definida como a que o Marcelo fez 10, 15 minutos depois da queda do avião.

As pessoas ficam em choque, às vezes paralizam com medo, mas o Marcelo não. E ele tinha 21 anos.

Uma tragédia adicional foi a avalanche que teve num dado momento. O que mudou ali?

Eu estava lendo há alguns dias e conversando com um especialista em sobrevivência, e ele me falou algo que é bem verdade, e eu realmente aprendi a ver algo a mais sobre o que passei ali.

E ele me disse: "Sabe, Nando, em situações de limites reais, nada melhora, tudo piora. Até que morra ou seja resgatado." E foi isso que aconteceu.

Tudo estava indo por água abaixo na nossa provação, até que duas semanas e meia depois que caímos, uma avalanche atingiu o avião. E foi uma avalanche enorme, à noite, foi apenas para dentro

da traseira do avião, então destruiu aquela parede bem fina de malas, e, dos 27 caras que estavam dentro do avião naquela noite, soterrou 27.

No escuro, o que você faz? Então, foi muito difícil. Muito difícil. Mas felizmente todos os caras não foram cobertos e começaram uma reação em cadeia.

E você não consegue respirar sob uma avalanche, é como estar debaixo d'água. Então tivemos dois minutos, dois e meio de tempo somente para sair de debaixo da neve. Esse cara começou essa reação em cadeia e

eles foram descobertos com os outros caras, assim que os tiraram, 19. Dos 27 que foram soterrados, oito morreram na avalanche porque não tiveram tempo para os alcançarem. - E você foi um dos últimos.

Eu fui um dos últimos. Esses caras agiram muito rápido porque você tem que pensar que isso se deu em escuridão completa. Então tudo mudou geograficamente, tudo muda dentro, escuridão completa,

e uma vez que alcançaram uma quantidade de neve que não podiam tirar, sabiam onde a cabeça dos caras estava. Então começaram a cavar eixos em torno de um metro de distância

para alcançarem o rosto dos caras e lhes dar ar. Foi uma decisão fantástica. A primeira grande decisão que vi na minha vida foi o Marcelo construindo aquela parede.

A segunda, esses caras, sem nenhum treinamento de sobrevivência, decidindo construir eixos para dar ar. Pode imaginar nossa situação de pânico, todos tentando encontrar os corpos? Esses caras disseram: "Não, só os rostos."

E eles, uma vez que alcançavam um rosto, o deixavam e iam para o próximo. Então foi o tipo de pensamento mais extremo sob uma situação de estresse que já vi. Com certeza. Quanto tempo você levou para sair do avião, quantos dias?

O avião estava, obviamente, totalmente coberto? - Sim, o avião estava coberto e permaneceu coberto de neve por algo como 30 dias mais. Mas nós tivemos que quebrar as janelas do lado direito, a cabine do piloto

e cavamos um túnel, e em torno de dois dias e meio depois, chegamos à superfície, e podíamos andar em cima dela, e 2.5 metros abaixo havia um trenó ali com pessoas vivas dentro.

Em um momento você, particularmente, sabia que a decisão tinha que ser tomada de

ir numa expedição. Quais foram as ferramentas que desenvolveu, houve muita inovação ali, porque tinha pedaços de coisas e tinha que criar ferramentas. Quais foram os exemplos de como inovou?

Acho que a criatividade sai da sua mente quando não tem nada e tem que construir coisas. Então tivemos que pesquisar, desenvolver, desenhar e inovar com nada,

mas criamos muitas coisas. Criamos óculos escuros para combater o reflexo da geleira porque era muito forte. Tivemos que criar sapatos de neve para andar sobre a neve, com as almofadas dos assentos e cintos de segurança,

e com pedaços de alumínio da estrutura do avião, construímos e concebemos sapatos de neve que tivemos que pesquisar e desenvolver para que pudéssemos, de fato, andar com eles.

E tivemos que inventar mochilas com pedaços de jeans e cabos,

nós desenhamos e construímos um saco de dormir, que foi fantástico para ficar exposto. Descobrimos material de isolamento que fica entre a parte de fora do avião e a de dentro.

É como um material de fibra de vidro amarelo, e do outro lado é plástico.

Com fio de cobre do sistema elétrico do avião, costuramos esses pedaços e fizemos um saco de dormir. Então tivemos que ser muito criativos,

todo e cada cara estava pensando no que fazer. Um outro cara criou uma máquina de fazer água, porque não havia água lá.

Então, a única forma era comer neve e gelo, o que machuca após, sabe, duas mil vezes de beber seu gelo e neve, sua boca fica com bolhas dentro e não é muito bom.

Então esses caras, com folha de alumínio, eles colocavam camadas finas de neve que, quando havia sol, derretiam em uma pequena lata para que tivéssemos um pouco de água.

Você preparou todas essas ferramentas, e a decisão de quando deixar o acampamento, quantos deveriam deixar o acampamento juntos, e em que direção, porque a direção não era clara também.

Como essas decisões foram tomadas? É uma longa história, mas não sabíamos onde estávamos. Essa é a primeira parte. Sabíamos que estávamos nas montanhas nos Andes,

mas não sabíamos onde. De acordo com a velocidade do avião, a hora que tínhamos voado e a direção do voo, calculamos que estávamos no fim dos Andes, perto de Curicó. Mas, fizemos mil cálculos com um

cara que era muito bom em matemática, e ele disse: "Estamos perto de Curicó, de 10 a 15 milhas do fim dos Andes." Mas uma das variáveis dessa equação estava errada, a direção do voo.

Então ao invés de estar ali, estávamos a 140 kms, em torno de 90 milhas a leste de onde pensávamos. Então estávamos no começo dos Andes e não no final. Então a decisão foi, eu disse: "Não é todo mundo que pode começar isso,

alguns dos caras não têm condicionamento, alguns não têm a disposição para ir." E eu disse: "Ok, se ficarmos aqui..." Eu vi o roteiro do que iria acontecer, as montanhas te matam, no final.

Você não pode viver lá. Alpinistas chegam ao topo e saem de lá o mais rápido que podem. Então eu falei pros caras: "Olhem, a avalanche matou oito, três mais caras morreram depois; estamos enfraquecendo, não podemos sobreviver aqui.

Vamos sair daqui." Mas não é todo mundo que tem a mesma disposição ou vigor físico pra fazê-lo. Então eu disse: "Eu vou sair daqui. Ou, se não, vou morrer tentando."

Eu convenci dois ou três caras das minhas ideias de sair para o oeste, e o Roberto Canessa e o Antonio Vizintín disseram: "Ok, iremos contigo."

Mas aí eu tinha essa equação na minha mente também; clima, condicionamento físico e comida. Eu tinha que tentar a jornada final antes que estivéssemos fracos demais para tentar.

Antes que não tivesse mais comida. Mas tínhamos que esperar por uma trégua no clima. Sabíamos que sem nenhum equipamento, morreríamos se uma nevasca ou tempestade

nos pegasse nas montanhas. - É importante notar que

o acidente foi em Outubro, então no Hemisfério Sul estavam na primavera, e estava indo para o verão, então muitos provavelmente esperavam que o verão favoreceria um resgate. - Sim, toda semana

que passava estávamos mais perto do verão.

Mas, naquela altitude, o clima não é o mesmo que na praia. Então nevou até 9/12.

Mas dia 12/12, não havia uma nuvem no céu. E eu disse: "Vamos." Só caminhamos por um dia, um dia e meio talvez. Então começamos, e nós três fomos escalar um pequeno morro que tínhamos na frente,

e dali veríamos os vales verdes do Chile, a oeste. Não sabíamos que tinha 5500 metros. Antes de ir nessa caminhada, vocês eram três caras. Você escolheu o time?

- Sim. - Por que escolheu os dois outros caras? Sabe, olhar de fora é muito diferente de olhar de dentro. Todo jardim é mais verde do outro lado, sabe?

Toda empresa é melhor, a outra empresa é mais eficiente, tudo é diferente. As pessoas sempre dizem: "Você foi tão corajoso." Estávamos com tanto medo; essa é a diferença.

Talvez a coragem venha do medo. Eu percebi que íamos morrer. E eu tentei convencer esses caras. Mesmo num time sobrevivente, você se entende melhor com uns do que outros.

É como trabalho em equipe, você absorve suas vibrações, relacionamentos e se entende melhor. E eu falei para o Roberto: "Olha, nós somos os caras mais fortes aqui. Temos a disposição de ir.

Não queremos morrer sentados. Eu vou, por favor, venha comigo." E ele disse: "Eu sei que está falando as coisas certas, e

nenhum helicóptero vai vir aqui, não vão vir, então eu vou com você. E quem mais virá conosco? Precisamos de outro cara." E começamos, olhamos o primeiro, o segundo, o terceiro; "Não, estão fracos demais."

Quarto, quinto; "Não querem ir." "Aquele está ferido. Só há dois restantes; não acho que aquele pode ir; ok, Antonio, venha conosco." Foi como uma seleção do melhor cara para o melhor trabalho.