No livro States of Denial, o sociólogoStanley Cohen cita uma passagem do romance O Planeta do Sr. Sammler*, escrito por Saul Bellow. Elias, sobrinho do personagem que dá nome ao livro, é médico e está hospitalizado, depois de passar por uma cirurgia em decorrência de uma embolia. O senhor Sammler pensa com seus botões: “Elias ia morrer de hemorragia. Será que ele sabia disso? Claro que sim. Ele era médico e devia saber muito bem. Mas ele também era um ser humano e, por isso, tinha como arrumar outra maneira de enfrentar a situação. Saber e não saber ao mesmo tempo — um dos recursos mais usados pelas pessoas”.

Um recurso bastante usado pelas pessoas, como definiu Cohen, e também um dos mais enigmáticos. “A capacidade de negar é um fenômeno incrivelmente humano, quase sempre inexplicado e muitas vezes sem explicação disponível, produto da intensa complexidade de nossa condição emocional, linguística, moral e intelectual”, escreveu o estudioso.

Além de misterioso, trata-se de um mecanismo complicado. Vou começar uma breve discussão sobre o que é negação, como ela se processa e por que existe. Isso vai levar a uma breve explicação teórica com um objetivo totalmente prático: oferecer um contexto mais amplo para os exemplos contidos neste livro e ajudar o leitor a compreender melhor como é possível identificar e conter um processo de negação.