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Em uma entrevista recente para HSM Management você mencionou 3 passos para uma liderança adaptativa, que estavam diretamente relacionadas com a natureza.

Quais são esses 3 passos? - Na natureza um organismo desenvolve novas capacidades para enfrentar, desafiar e mudar o ambiente.

Isso é feito conservando todo o DNA que tem feito um bom trabalho e deixando de lado tudo aquilo que não é mais útil. E então inovar para trazer as melhores capacidades para o futuro.

Traduzindo isso para nossa cultura e nossos processos sociais, nossas políticas, o trabalho de adaptação, enfrentar, desafiar e mudar o mundo

consiste nesses 3 passos, que partes da nossa cultura queremos conservar? Nossas competências, nossos valores, identidade, virtudes,

nossa língua, nossa cultura. O que queremos conversar? Que partes da nossa cultura atual queremos descartar?

As mudanças do mundo requerem que nos afastemos da história. Não apenas continuar exatamente como éramos, mas também se afastar, e esse afastamento tem duas partes básicas,

uma é: temos que desistir de certas coisas. E frequentemente mudanças envolvem perdas de vários tipos, você pode conseguir conservar 95% do DNA de uma cultura,

mas 1, 2 ou 5% do DNA da cultura precisa ser perdido. E isso precisa ser reposto com inovação. Inovação que traz novo DNA, nova cultura, nova capacidade,

que vão se juntar às antigas capacidades para o melhor da história o melhor da cultura em direção ao futuro.

A natureza é altamente conservadora, até mesmo quando cria mudanças transformadoras.

A maior parte do nosso DNA, o seu e o meu, é o mesmo de um chimpanzé. 99%. É preciso apenas de 1% de mudança para nos dar uma imensa gama de capacidade.

Nós podemos viver em qualquer lugar do planeta, podemos até mesmo viver no espaço. É maravilhoso o que humanos podem fazer se comparados aos chimpanzés.

E ainda assim, precisou apenas de 1% de mudança. Acho que isso é importante porque muitas pessoas na prática de liderança

são entusiasmadas com mudanças. Mas eles assustam as pessoas, pois não falam de toda a cultura e história que possuem,

e vão preservar, e também conservar. Ainda que existam perdas e inovações que são requeridas para avançar em direção ao futuro.

Para satisfazer as necessidades do nosso mercado e nosso contexto global atual.

- E a ideia de liderança sempre vem ligada à autoridade. Como se ambos fossem a mesma coisa. Como a liderança adaptativa lida com esses temas?

- Sim, e essa é uma pergunta muito importante, porque acho que quando lemos livros ou artigos sobre liderança

frequentemente as pessoas confundem liderança com autoridade. A gente executa as duas coisas como se fossem a mesma, mas elas não são.

Muitas pessoas em altas posições de autoridade realmente praticam a liderança. Mas outras muitas na mesma posição não praticam liderança.

Elas não são as mesmas. Ao mesmo tempo que tem gente que pratica liderança e também não tem autoridade. Elas podem praticar a liderança em sua vizinhança, em sua faculdade,

no meio dos seus negócios, ou até mesmo em suas famílias, no sentido de mobilizar aquele grupo para construir novas capacidades,

para ir de encontro aos desafios do mundo. E, às vezes, temos pessoas que praticam liderança sem que lhes peçam, sem serem escolhidas, sem serem elegidas,

ou promovidas, elas simplesmente mobilizam as pessoas que veem em seus arredores para resolver um problema coletivo. Apenas porque elas se importam.

Então temos muitas pessoas que praticam liderança com autoridade, e também temos muita gente que pratica liderança sem autoridade, e metade da nossa sociedade, ou negócios, requerem liderança

praticada por muita gente, não apenas nos altos níveis hierárquicos, mas distribuida pela empresa. Porque em uma grande organização,

você precisa de pessoas que pratiquem liderança em esferas próximas ao consumidor e perto da interface da realidade. Na natureza, alguns dos princípios que vemos

é que há adaptações locais para ambientes locais, você tem a especialização de uma criatura para seu ambiente em particular. Um pássaro que é muito bom em quebrar sementes, ou caçar sua comida,

em certo ambiente, mas não no outro. Então temos uma linda diversidade na natureza, mas são apenas adaptações locais para ambientes locais.

Muitas grandes empresas, e isso é verdade até mesmo em grandes comunidades políticas, por exemplo, entendo que São Paulo tenha 18 milhões de habitantes, mas apenas um governo central.

Se torna complicado organizar as pessoas partindo de um planejamento central. Precisamos de estruturas e processos para endereçar responsabilidades,

adaptações dentro e fora da periferia onde as pessoas realmente estão vivendo, e mais perto de onde as adaptações locais são realmente necessárias. O desafio para uma grande empresa é criar coerência centralmente,

mas com um grande acordo de adaptabilidade preferencialmente. - Você começou a desenvolver o conceito de liderança adaptativa há 30 anos? - Sim.

- E como isso evoluiu? Como é aplicado agora? E quão diferente é dos anos 80 ou 90? - Originalmente, a ideia evoluiu pois eu comecei como um médico.

E como médico, há muitos problemas que vemos e que não podemos resolver. A pessoa vai ao médico com seu filho ou sua filha, tanto o pai quanto a mãe,

com uma infecção no ouvido. O médico pode diagnosticar o problema, e prescrever o antibiótico correto.

E a criança melhora. Há muitos problemas médicos importantes que são técnicos. No sentido de que desenvolvemos a capacidade de resolver um problema.

O paciente não precisa fazer muito a não ser seguir as instruções do médico. Mas também descobri na medicina que há muitos problemas parcialmente técnicos, mas parcialmente adaptáveis.

Problemas que requerem que o paciente mude a sua vida. Por exemplo, um paciente pode ter uma doença cardíaca, parte do problema é técnico, você pode fazer uma cirurgia

e dar a pessoa novas vesículas para seus corações, mas depois da cirurgia, o paciente ainda sai com parte do problema. O paciente precisa mudar sua dieta,

se exercitar, rever sua rotina de estresse, se é fumante...

E não há nada que o médico possa fazer para mudar isso. A localização da responsabilidade continua com o paciente. Então a liderança requerida ao médico é mobilizar o paciente

para que ele mude a sua vida. Mas não dá para tirar o problema das mãos do paciente. Você precisa fazer com que ele tome conta do seu problema,

e portanto é a única solução. Então o que comecei a descobrir na medicina é que há muitos problemas que são parcialmente técnicos e parcialmente adaptáveis.

E os problemas adaptáveis são aqueles onde as pessoas são parte deles, assim como também são a solução. Não dá para colocá-las para dormir e dar a elas algo para resolver.

Quando deixei a medicina para estudar liderança, negócios, governos e políticos, comecei a ver que na vida de governantes e homens de negócios havia muitos problemas que eram técnicos, mas muitos que eram adaptáveis,

e precisávamos então de táticas de liderança que motivassem as pessoas para fazer um trabalho adaptável e construir novas capacidades. Porque a tendência, quando as pessoas estão em dificuldades,

é depender de autoridades para uma resposta. Quando um paciente tem uma criança doente, ele quer que o médico cure a doença.

E quanto mais estressadas as pessoas estiverem, quanto mais desesperadas estão, quanto mais ameaçadas se sentem,

mais desesperadamente vão se voltar à uma autoridade, esperança que a autoridade possua uma cura mágica.

Isso cria um mercado.

Em política, cria um mercado onde o mercado demanda uma pessoa forte com uma grande segurança que represente a imagem de alguém que possa solucionar qualquer problema que exista.

E infelizmente, por ter um mercado, haverá sempre um fornecedor. Comecei a perceber que uma das vergonhas na política é preparar as pessoas para a cidadania requerida,

onde os próprios cidadãos tem que analisar o problema e se mobilizar para fazer parte da solução.

E cortar essa característica de cidadãos que procura uma autoridade carismática que tenha soluções mágicas.

- Quais são as principais habilidades para um líder contemporâneo que vive nessa cultura diversa e desafiante em que estamos agora?

- Acho que há múltiplas habilidades, começa com a capacidade de sair no campo plano,

dar um passo atrás e ir até uma varanda para que você veja a ação sob alguma perspectiva. Frequentemente as pessoas estão presas às ações,

elas estão tão presas às ações que não conseguem ver o plano integral. A pessoa precisa da capacidade e da disciplina psicológica para ser apta a dar um passo atrás na ação

e então fazer um diagnóstico da dinâmica mais ampla do sistema social que se esforça contra uma série de problemas. E depois a pessoa precisa de habilidades de diagnóstico,

para ser apta a distinguir as partes de um desafio que são técnicas das adaptáveis.

Em terceiro lugar, a pessoa precisa de um repertório para saber tratar os desafios técnicos com autoridade e comando e gerir seus conhecimentos e tratar os desafios adaptáveis com liderança,

nos quais você precisa mobilizar o aprendizado social e o desenvolvimento de novas capacidades. Essas duas gamas de habilidades, as habilidades de autoridade e comando,

e o conhecimento de monitoramento, e as habilidades de mobilizar aprendizado social as habilidades de liderança, não são exatamente as mesmas.

Algumas pessoas são muito boas em um, mas fracas na outra. Então quando trabalho com as pessoas na prática de liderança, tanto nas minhas aulas quanto em minhas consultorias,

temos que expandir o repertório das pessoas, ou sua gama de capacidades para que elas sejam fortes em ambos os domínios.

Tanto o domínio gestorial, de praticar autoridade e comando, coordenar a resolução de problemas complexos eficientemente quando for um problema técnico.

E praticar a liderança quando o trabalho requer engajar pessoas e enfrentar realidades e questionamentos que são difíceis para elas, onde elas tenham que fazer o trabalho mais árduo, como eu disse as 3 partes,

de perceber qual cultura podemos conservar, que perdas teremos que aceitar, e que inovações devemos internalizar em nós mesmos

para que possamos levar o melhor da nossa identidade para o futuro. -

- E ser um líder é uma tarefa de extrema responsabilidade, que inclui levar a culpa quando o time falha. Em sua opinião, qual o verdadeiro prêmio em ser um líder?

- A pessoa tem que estar disposta a ser neutralizada. A neutralização pode tomar várias formas distintas, já sentei com presidentes e primeiros-ministros

à beira de deixar seus escritórios, de serem assassinados por razões políticas. Me sentei com Dalia Rabin,

a filha de Yitzhak Rabin, para analisar o que estava acontecendo com seu pai quando ele foi assassinado

por representar mudanças quando as pessoas as consideravam muito dolorosas.

Temos que estar dispostos, na prática de liderança,

de sermos machucados, é preciso muita força e estamina, e recursos na sua própria vida pessoal

para sustentar esse custo potencial Você pode ser visto como um herói, você pode até ganhar um prêmio Nobel,

como um dos meus aconselhados, presidente Santos acabou de ganhar. Mas você também vai pagar na mesma proporção, e você tem que estar pronto para pagar custos significativos.

- Ok! Muito obrigada.