Muito já se inventou para solucionar os endêmicos problemas de transporte e fluxo de trânsito em nossas cidades. Em São Paulo, por exemplo, já tentamos alterações conjunturais, como o rodízio de automóveis. Não funcionou. Já tentamos mudanças estruturais, como a construção de mais vias e do Rodoanel. O trânsito está cada vez pior. Agora estamos tentando uma mudança política, com a priorização do transporte coletivo, com mais linhas de metrô e tarifas subsidiadas e corredores preferenciais de ônibus. Arrisco duvidar do êxito, uma vez que Londres possui o melhor metrô do mundo e um sistema de ônibus invejável, e ainda assim recorre a soluções ad hoc para garantir o fluxo, porque o trânsito continua a crescer.

Mantendo o exemplo de São Paulo, 10 milhões de pessoas saem, para trabalhar ou estudar, todos os dias no mesmo horário e direção. Depois, 10 milhões de pessoas voltam juntas para casa. No intervalo entre essa ida e volta coletivas, há quase oito horas de ônibus e ruas esvaziados. Essa infraestrutura cara é realmente utilizada por apenas quatro horas diárias.

O que aconteceria se alinhássemos o uso com a capacidade instalada? Imagine, em vez de um rodízio de carros, um rodízio de vidas. Grupos profissionais distintos poderiam ter rotinas distintas. Bancos abririam só no período da tarde. O comércio não funcionaria antes das 11 horas da manhã. Os escritórios passariam a operar em três turnos, como a indústria. Escolas dariam férias em diferentes períodos do ano –hotéis e pousadas de outras cidades deixariam de ter baixas temporadas.

Você nunca percebeu a dificuldade que é conseguir uma mesa em um restaurante na hora do almoço? Pois mais triste que sua luta pelo prato de comida é o restaurateur ver que, durante 18 horas do dia, toda aquela estrutura fica desperdiçada.

O rodízio de vidas seria a solução não só para a mobilidade, mas também para os negócios e até para a redução da emissão de gases de efeito estufa, o que, a meu ver, será resolvido principalmente com inovação, e não com redução de produção e consumo.

O vilão errado

Diversas correntes pregam que é preciso reduzir o consumo, e consequentemente a produção, para resolver os problemas que enfrentamos, do trânsito ao aquecimento global. Creio que pedir que as pessoas restrinjam seu acesso a conforto em nome da sustentabilidade é, antes de mais nada, uma injustiça histórica. Em âmbito global, basta uma pergunta: os países industrializados desmataram seu território para garantir o consumo a seus habitantes. Quando chega nossa vez de elevar a qualidade de vida, não devemos fazê-lo? E o mesmo se aplica à seara local: quem dirá a nossa classe C emergente, só agora com condições de viajar de avião, que não o faça para não poluir o planeta?

Escolheram o vilão errado: devemos buscar soluções que priorizem o consumo com responsabilidade, não que eliminem o consumo. A consciência social e ecológica não pode ser imposta a uma população; ela deve evoluir a partir da melhor qualidade de vida de cada um.

Perspectiva futura

Ainda estamos acostumados, infelizmente, a pensar no curto prazo, mas, se esticarmos um pouco mais nossos horizontes, veremos que, se a infraestrutura está subdimensionada para as necessidades atuais, já pode estar superdimensionada para daqui a 20 anos, quando a consolidação da sociedade em rede tende a acentuar o trabalho remoto, a compra sem sair de casa, o estudo a distância.

Daqui a 20 anos, o trânsito vai diminuir. O que acontecerá com ruas, avenidas e pontes? Ficarão ociosas. E o dinheiro terá sido desperdiçado.

Aumenta a ineficiência de todas as pessoas

Melhorar o trânsito não beneficia apenas as pessoas que possuem automóvel. Membros das classes A, B C, D e E sofrem com ele de maneira igualitária, porque é a produtividade da cidade que fica afetada.

A violência aumenta em função do estresse dos cidadãos e das oportunidades que o engarrafamento oferece aos malfeitores. O atendimento à saúde é prejudicado pela inviabilidade do socorro imediato. Os preços dos produtos sobem por conta da péssima logística. A ineficiência atinge todos os integrantes de uma cidade que tenha o fluxo de transporte seriamente comprometido.

Agenda de trabalho quase doentia

Não se trata de resolver os problemas de uma elite, mas da sociedade. O comportamento das pessoas que vivem nas grandes cidades deve mudar. Começo por mim mesmo: participo de cerca de uma dúzia de reuniões por semana, deslocando-me para encontrar pessoalmente meus interlocutores. Pelo menos sete delas poderiam ser feitas por videoconferência, Skype, WhatsApp ou um velho e bom telefonema.

O que me faz enfrentar, semanalmente, grandes congestionamentos sorvedores de tempo em uma agenda quase doentia? Identifico três grandes conjuntos de razões:

  1. A falta de infraestrutura digital baratane confiável nas duas pontas dondiálogo, o que inclui melhores sistemas de videoconferência, banda larga mais robusta etc.
  2. A falta de experiência e de uma etiqueta-padrão para reuniões a distância, uma vez que estas exigem cultura e atitude novas.
  3. A dificuldade de quebrar paradigmas: todos nós sempre pensamos no que é, não no que pode ser. Infelizmente, repetir comportamentos nos dá segurança.

Você, eu, todos nós tendemos a fazer mais do mesmo, independentemente das alterações que ocorrem a nosso redor. E, assim, continuamos a fazer da vida nas grandes cidades um inferno, quando ela poderia já ter melhorado muito em função da tecnologia disponível.

A área administrativa das empresas e os prestadores de serviços em geral também têm de modificar seu paradigma operacional. Fábricas e hospitais já atuam em três turnos, por que o resto dos agentes econômicos não faz o mesmo? No dia em que isso ocorrer, as grandes cidades terão seus fluxos de trânsito e de consumo distribuídos uniformemente no decorrer do dia.

Tome como exemplo uma agência de publicidade qualquer. O atendimento retorna do cliente no início da noite com a missão de refazer o título do anúncio que será impresso, mas apenas uma palavra será trocada. A área de criação receberá o pedido de alteração apenas no dia seguinte, no meio da manhã; o material será finalizado após o almoço e retornará ao cliente 24 horas depois da solicitação. Por que perder tanto tempo? Não poderia haver uma estrutura técnica no período noturno que providenciasse a mudança? De novo, não se trata apenas de agilidade, mas de melhor aproveitamento do mesmo metro quadrado e do mobiliário da agência.

Utopia versus governo

Parece utopia organizar uma mudança de hábitos tão radical? Se o governo fizesse sua parte, não seria. Imagine que ele isentasse de imposto equipamentos de videoconferência, subsidiasse voos cuja decolagem fosse durante a madrugada, reduzisse ICMS para compras online, incentivasse a prática do home office nas empresas. Ele também teria de rever o pagamento de adicionais por trabalho noturno; precisaria viabilizar contratações fora das regras rígidas que hoje norteiam a relação empregado-empregador. Eliminando os fatores geradores de trânsito, elimina-se o trânsito.

Inverter a lógica

É ilusão acreditar que a construção de mais vias, a instituição de pedágios e de rodízios de carros e até a priorização do transporte público resolverão os problemas de trânsito. Podem amenizá-los, mas trata-se de desperdiçar recursos em uma perspectiva futura.

Não tem cabimento também investir na repressão ao consumo e à produção. Isso inviabilizará empresas e empregos, e, em breve, será preciso voltar a estimular o consumo, o que é, além de socialmente injusto para com os consumidores que chegam ao mercado, francamente esquizofrênico.

É mais factível, e mais sábio, adaptar a vida das pessoas à infraestrutura disponível do que fazer o contrário. Um governo consciente e apto a enfrentar desafios e uma população disposta a inovar e quebrar paradigmas em prol da qualidade de vida podem garantir, a todos nós, um cotidiano muito mais agradável e produtivo.

"As pessoas querem que as coisas mudem, mas não querem mudar”


Walter Longo é o presidente executivo do Grupo Abril.