O iPlayer, da BBC, é o mais popular serviço de vídeo on-demand no Reino Unido: em um ano, forneceu 600 milhões de horas de filmes, séries e programas de TV. A procura por seu acervo cresceu muito depois que os usuários passaram a acessá-lo também em tablets e smartphones. Como o iPlayer atendeu ao estouro de demanda?

A BBC utilizou a tecnologia da “cloud computing”, ou computação em nuvem, como um serviço terceirizado em que se paga apenas o que se usa. Além da resiliência, a nuvem lhe deu capacidade de previsão, já que a rede britânica soube antecipadamente quanto lhe custaria oferecer os gigantescos volumes de conteúdo aos usuários, e isso facilitou o planejamento e a execução da estratégia do iPlayer. Se operasse com servidores tradicionais dentro de casa, ela não registraria tanto êxito.

Assim como a BBC, cada vez mais empresas estão vendo a computação em nuvem como a melhor maneira de repor ou ampliar suas capacidades em tecnologia da informação (TI) sem grandes investimentos em infraestrutura e equipes operacionais, tanto que 76% das organizações têm alguma estratégia voltada para o setor, segundo pesquisa mundial realizada pela Capgemini, provedora global de serviços de consultoria, tecnologia e terceirização. As razões? Redução de custo de 25% a 30%, mais rapidez em pôr produtos no mercado, eficiência operacional e liberação de espaço nos servidores (data centers) internos.

A nuvem vem ganhando mais adeptos corporativos também por conta de fenômenos como o big data –como processar conjuntos extremamente volumosos de dados apenas em casa?–, a crescente mobilidade dos profissionais e a prática do home office, que exigem da pessoa que carregue o escritório consigo para onde quer que vá.

Isso explica por que a decisão sobre esse assunto está mudando de mãos dentro das empresas: em vez de exclusiva do departamento de TI, agora passa a ser estratégica, a cargo das unidades de negócios –conforme a pesquisa da Capgemini, estas já decidem em 45% dos casos.

No entanto, apenas 56% das organizações pesquisadas afirmaram confiar em colocar seus dados em nuvem, com temores quanto a segurança, confidencialidade e propriedade intelectual, acentuados pelas recentes denúncias de espionagem na internet.

redução de custo
Cerca de 76% das empresas têm alguma estratégia voltada para a computação em nuvem, conseguindo obter algo entre 25% e 30% de redução de custo

Tendências no Brasil

Como as empresas brasileiras estão se comportando em relação ao uso da nuvem? Uma das primeiras a abraçá-la, uma das maiores redes de lojas de departamentos de vestuário no Brasil foi estudada anonimamente na tese de mestrado de Cyro Sobragi, defendida em 2012 na escola de administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), permitindo uma visão do que vem acontecendo.

Denis Arcieri, country manager da IDC Brasil
Denis Arcieri, country manager da IDC Brasil

A empresa adotou o modelo híbrido: 40% de sua infraestrutura e serviços em TI foram para a nuvem pública e 60% continuaram internos, na chamada nuvem privada. Na nuvem pública, ficaram o serviço de automação da força de trabalho, o de e-mail e o sistema de gestão de projetos, e, na privada, as aplicações que exigem customização, como o ERP (Enterprise Resource Planning).

A reportagem de HSM Management procurou várias companhias que têm estratégias de nuvem, mas nenhuma quis detalhar o que vem fazendo. Segundo Paulo Marcelo, presidente da Capgemini Brasil, até grandes bancos e órgãos do setor público, naturalmente mais conservadores, já estão na nuvem pública hoje. Experiências de consultoria e um estudo realizado pela IDC Brasil, empresa especializada em tendências de tecnologia, traduzem os principais movimentos:

Paulo Marcelo, presidente da Capgemini Brasil
Paulo Marcelo, presidente da Capgemini Brasil

» Crescimento em números. Em 2014, o mercado mundial de computação em nuvem deve crescer 25% e atingir US$ 100 bilhões, segundo projeção da IDC. No Brasil, um pouco atrasado, o crescimento previsto é bem maior: 65%. Em 2013, o mercado de nuvem pública no País girou em torno de US$ 342 milhões. Em 2014, passará a US$ 569 milhões e, em 2017, chegará a US$ 2,6 bilhões.

» 60% querem adotar. A última radiografia da nuvem no País feita pela IDC Brasil, no segundo semestre de 2013, aponta um rápido amadurecimento do mercado em relação à computação em nuvem. Se em janeiro de 2010 apenas 3,5% dos CIOs entrevistados manifestaram a intenção de investir em computação em nuvem, no segundo semestre de 2013 quase 60% afirmaram ter essa intenção em 2014. Isso é menos do que os 76% da amostra mundial da pesquisa da Capgemini, mas a evolução é significativa. “A tendência é que neste ano a maioria das empresas faça algum investimento em nuvem pública ou privada, seja em infraestrutura, softwares ou plataformas”, afirma Denis Arcieri, country manager da IDC Brasil. “A perspectiva é que mais de 20% dos servidores comercializados em 2014 irão para data centers públicos, e muitos deles vão estruturar os provedores de cloud computing para fornecer o serviço.”

» Pequenas e médias puxam. Grande parte do crescimento tem vindo de pequenas e médias empresas, segundo Arcieri. A projeção revela uma consolidação do uso da computação em nuvem pelas organizações. Mas, como frisa Paulo Marcelo, até setores refratários quanto a essa terceirização, por causa de regulações e restrições mais severas do que as da média do mercado, já possuem atividades em nuvem pública hoje.

nuvens privadas
Atrativos típicos da nuvem, como virtualização, segurança, recuperação de falhas, alta disponibilidade das aplicações e capacidade de processamento, também têm sido implantados em data centers próprios

» O uso mais comum. A pesquisa da Capgemini mostra que 83% dos entrevistados usam a nuvem para desenvolvimento e gestão de novas aplicações. As unidades de negócios veem a nuvem como plataforma ideal para que novas aplicações cheguem ao mercado o mais rápido possível, e ela de fato tem se tornado a plataforma-padrão para hospedar aplicações novas.

» Aplicações estão mais sofisticadas. Antes eram colocadas na nuvem aplicações mais básicas, como o e-mail, e agora já se detecta a intenção de migrar soluções como o CRM [Customer Relationship Management] e o ERP. “Isso está claramente alinhado à pressão que os CIOs sofrem para reduzir o prazo do ciclo de implementação de uma solução nas empresas”, diz Arcieri.

» Analytics começa a engatinhar. Segundo a Capgemini Brasil, grande parte das empresas brasileiras realmente não possui uma estratégia clara de analytics, porque elas centram esforços nos sistemas transacionais que sustentam suas operações. No entanto, segundo Paulo Marcelo, alguns clientes já estão usando a nuvem por sua grande capacidade de processamento. “Como o refinamento das informações e o vínculo com os dados internos do negócio ainda acontecem em soluções in-house, fica irrelevante a preocupação com a segurança das informações na nuvem.” Ele afirma que as empresas que estão utilizando ferramentas de analytics como orientadores de seu negócio geralmente mostram-se muito satisfeitas com os resultados alcançados.

*» Resistentes e defensores. *As áreas menos favoráveis à migração para a nuvem são as de back office, e as mais favoráveis, as de TI e de negócios, que enxergam novas possibilidades de produtos e ofertas usando a flexibilidade e a velocidade de resultados que a nuvem proporciona. “Provavelmente, as áreas mais resistentes ainda não mediram os ganhos que a migração para a nuvem pode trazer para suas organizações”, diz Paulo Marcelo.

» Nuvens especializadas. Ainda não há no Brasil as nuvens especializadas em segmentos de negócio, como a escocesa LawCloud, nuvem para escritórios de advocacia, ou a Capital Markets Community Platform, nuvem do mercado de capitais fruto de parceria entre a Bolsa de Valores de Nova York e a VMWare.

» Foco em segurança. Quanto ao sigilo de dados sensíveis dos clientes finais, Paulo Marcelo lembra que o modelo de negócio para empresas é diferente dos serviços disponibilizados ao público em geral, como Dropbox ou Google Drive. “Os modelos profissionais são fortemente baseados não só em acordos de nível de serviço, mas em um sofisticado roteiro de cópias de segurança, permitindo que eventuais dados perdidos sejam rapidamente recuperados.”

» Excelência em casa. Se a empresa que adota o serviço em nuvem não mantém em seu quadro especialistas na área, deveria, na visão de Paulo Marcelo, para conectar negócios e tecnologia.

Modelo de gestão em xeque

Como a mobilidade dos profissionais requer o acesso às informações da companhia a partir de qualquer lugar, isso instiga que o modelo de gestão de pessoas relacionado com o tempo de trabalho dentro do escritório seja substituído por outro modelo, mais orientado a resultados e produtividade. “Esse é o maior desafio de gestão para o qual as empresas precisam se preparar agora, e a nuvem é um elemento fundamental dele”, analisa Paulo Marcelo, presidente da Capgemini Brasil.

As áreas de back office, como as de recursos humanos, jurídica e financeira, estão puxando o cordão, porque se beneficiam diretamente da maior adoção do home office e da ampliação da capacidade de processamento das aplicações em períodos críticos, como fechamento de resultados trimestrais ou anuais, por exemplo.

Obstáculos

Denis Arcieri, da IDC Brasil, vê dois obstáculos cruciais atualmente no País em relação à migração para a nuvem. O primeiro é a segurança. “Diferentemente de outros países, no Brasil, o CIO quer saber onde está a nuvem; ele quer visitar o data center, e é importante para ele que a nuvem não esteja longe fisicamente da sede de sua organização.” O segundo ponto é a infraestrutura de rede no Brasil. “Em alguns casos, a infraestrutura de telecomunicações é um fator inibidor à adoção da computação em nuvem.”

Quão maduro é o Brasil em TI? Considera-se que, quanto maior o investimento em softwares e serviços, maior é a maturidade de um mercado. Se, na média mundial, os investimentos são distribuídos meio a meio, no Brasil, ainda são 60% em hardware e 40% em software e serviços, segundo a IDC. 

nuvens privadas

Atrativos típicos da nuvem, como virtualização, segurança, recuperação de falhas, alta disponibilidade das aplicações e capacidade de processamento, também têm sido implantados em data centers próprios