Você presta atenção às conversas, formais ou despretensiosas, que acontecem por aí? Deveria. Seja na hora do cafezinho, no celular em pleno trânsito, durante a visita a um cliente ou até em um chat em tempo real com um amigo, ideias externadas com leveza e simplicidade podem ser um pequeno passo em uma conversa, mas um grande passo para os negócios, parafraseando o astronauta Neil Armstrong.

Lendas urbanas? Talvez algumas o sejam. Mas parece ter sido assim, pelo menos, que se tomaram grandes decisões relativas a Vale do Silício, Facebook, Palm V (Ideo), Pixar, Teach for America, Target, vodca Absolut, Starbucks, CollegeHumor e Zappos.

[Qual exemplo brasileiro poderia ser acrescentado? Talvez uma fala de Joesley Batista em 2007, quando era presidente da JBS e negociava a compra da Swift norte-americana (veja entrevista sobre a JBS na página 20). Conforme relatos variados, a conversa teria contido um blefe digno de uma jogada de pôquer –e a irreverência tão associada à cultura brasileira.

[As negociações iam mal e Joesley Batista resolveu sair da sala, fazendo a seguinte observação: “Essa é a proposta. Vamos lá no quarto botar uma bermuda e ir beber uma cerveja na piscina. Quando tomarem uma decisão, avisem”.

[A conversa deu certo e foi um dos fatos que alçaram a JBS aos postos de maior fabricante de carne bovina do mundo e de mais internacional de nossas empresas –e mais tarde, talvez, historiadores e a mídia poderão identificá-lo como o marco inicial de uma onda de internacionalização de negócios e marcas do País.]

1.“Podíamos encontrar empregos facilmente, mas gostávamos de trabalhar os oito juntos”

A maior parte dos aparelhos eletrônicos repletos de tecnologia que carregamos atualmente –desde os laptops até os iPhones– provavelmente não existiria se, em 1957, oito jovens gênios não tivessem se juntado e largado seu chefe, o brilhante mas meio louco William Shockley, para formar a própria empresa.

Esse grupo, batizado pelo ex-chefe de “Oito Traidores”, que incluía os futuros fundadores da Intel, Gordon Moore e Robert Noyce, desenvolveu alguns dos primeiros circuitos eletrônicos integrados e deu início à primeira onda de empresas do Vale do Silício. Um dos oito, Jay Last, hoje com 83 anos, lembra como tudo aconteceu:

Shockley era um cientista brilhante, mas um gestor terrível. Ele havia recebido o Prêmio Nobel por ter inventado o transistor e começou a desenvolver um novo equipamento, que era impossível, não funcionava. Ele jogou a culpa em nós. Reclamamos com Arnold Beckman, que havia fundado os Shockley Labs. No início, ele ficou ao nosso lado, mas, quando enfrentamos Shockley, nos deixou à deriva. Sabíamos que não poderíamos continuar trabalhando lá.

“Uma noite nos encontramos na casa de Vic Grinich [outro dos Oito Traidores] para combinarmos nossos próximos passos. Podíamos conseguir novos empregos facilmente, mas gostávamos de trabalhar os oito juntos. Naquela noite tomamos a decisão de achar uma forma de seguir trabalhando como um grupo. Porém nos perguntávamos: que empresa vai contratar oito pessoas ao mesmo tempo, como um grupo?

“Enviamos uma carta à Hayden, Stone & Co., empresa que o pai de Eugene Kleiner [outro integrante do grupo] conhecia, dizendo o que tínhamos a oferecer. Art Rock era um jovem que trabalhava lá. Ele teve a sacada de não jogar nossa carta no lixo. Com seu chefe, Bud Coyle, pegou um avião para se encontrar conosco. Art nos recomendou abrir nossa própria empresa, pois não havia como abrigar nosso grupo na deles. O que a Hayden, Stone podia fazer, e fez, foi nos ajudar a achar quem nos financiasse.

“Depois de sermos recusados por cerca de 30 pessoas, encontramos Sherman Fairchild, filho de um dos primeiros investidores da IBM. Ele investiu US$ 1,5 milhão no nosso grupo para criar a Fairchild Semiconductor. Nós oito, juntamente com a Hayden, Stone, éramos os donos da empresa. Na época, não tínhamos consciência do legado que deixaríamos. Fazendo uma árvore genealógica, descobrimos que muitas empresas nasceram da Fairchild. Ajudamos a dar início ao Vale do Silício.”  

2.“Você deveria simplesmente abandoná-los”

Em 2003, Mark Zuckerberg, segundo-anista em Harvard, assumiu o desenvolvimento de um projeto para os gêmeos Winklevoss, ao mesmo tempo que trabalhava para criar o Facebook. Os irmãos ficaram famosos por acusá-lo de ter-lhes roubado a ideia. Uma conversa online com Adam D’Angelo, colega de faculdade, revela quais eram as prioridades de Zuckerberg. 

Zuckerberg: Vc sabe que estou trabalhando naquele site de namoro, né?

Zuckerberg: Fico pensando como ele é parecido com a ideia do Facebook.

Zuckerberg: Pq eles vão acabar indo para o ar mais ou menos na mesma época.

Zuckerberg: Só se eu sacanear o pessoal do site de namoro e deixar o projeto um pouco antes da data que eu disse que estaria pronto.

D’Angelo: hahaha

Zuckerberg: Sabe como é… não acho que as pessoas vão se cadastrar no Facebook se pensarem que é algo para namoro.

Zuckerberg: E acho que as pessoas não acreditam nessas coisas de encontros pela internet também.

Zuckerberg: Mas os caras que estão fazendo o site de namoro vão fazer uma promoção e tanto.

Zuckerberg: Fico pensando na melhor solução.

Zuckerberg: Acho que a coisa do Facebook já atrairia, sozinha, muita gente –a menos que fosse lançada ao mesmo tempo que o site de namoro.

Zuckerberg: Em que situações as duas coisas vão se neutralizar e ninguém vai sair ganhando? Alguma ideia? Será que existe algum jeito de juntar os dois?

D’Angelo: Podíamos fazer algo como a Friendster (hahaha). Stanford tem algo assim internamente.

Zuckerberg: Bem, eu estava pensando em fazer isso com o Facebook.

Zuckerberg: Também odeio fazer isso para outras pessoas (hahaha). Sabe como é… odeio trabalhar para outras pessoas. Acho que a melhor coisa a fazer é acabar o Facebook e esperar até o último dia antes da data em que eu deveria finalizar o site deles e dizer: “O de vocês não é tão bom como esse; então, se vocês quiserem se juntar ao meu, vocês podem… senão, eu posso ajudar vocês com o seu depois”. Vc acha que isso é muito sacana?

D’Angelo: Acho que você deveria simplesmente abandoná-los.

3. “Podemos fazer melhor do que isso"

Antes do iPod, do iPhone e do iPad, havia o Palm V. Com dimensões menores e mais leve que os modelos anteriores, é considerado o equipamento de uso pessoal com design atraente por excelência. Dennis Boyle, sócio da Ideo, lembra-se das conversas que levaram a esse projeto.

“Em 1995, a Palm lançou o primeiro Pilot, um pequeno aparelho cinzento. Pensei: ‘na ideo, Podemos fazer melhor do que isso’. com base nessa intuição, Liguei para a Palm e pedi uma reunião com Jeff Hawkins, o fundador. Ele nos recebeu, com uma equipe, e conversamos sobre as possibilidades. seu pessoal repetia: ‘Quem compra nossos Pilots são os fãs de tecnologia na faixa dos 30 anos. Queremos mais: queremos pessoas de todas as idades e especialmente as mulheres’.

Começamos a desenvolver protótipos e mostrá-los a mulheres no Stanford Shopping Center, mas não conseguimos nada com isso. Um dia, Jeff apareceu com o telefone StarTac, da Motorola, e Todos reagiram encantados. ‘Queria conseguir a mesma reação ao tirar o palm do bolso’, disse ele. Jeff estava realmente comprometido a fazer algo fino, leve e elegante.”

4. “O sonho de um longa-metragem com animação digital”

Em 2006, pouco depois de a Disney ter comprado a Pixar, Steve Jobs contou como descobriu o que se tornaria o famoso estúdio de animação por computador, do qual seria o presidente. Naquela época, a Pixar era só a divisão de computação gráfica da Lucasfilm, comandada por Ed Catmull. “Ed me contou de seu sonho, que ele tinha desde a faculdade, de criar o primeiro filme animado inteiramente por computador”, contou Jobs. “Mergulhei no projeto, tanto espiritual como financeiramente… Levou dez anos, mas nós conseguimos.” Eis a versão de Catmull:

“Íamos apresentar um computador voltado para o design gráfico, chamado Pixar Image Computer, na SIGGRAPH, um evento de computação gráfica. Eu estava no nosso estande quando Steve apareceu e ficou andando por ali.

“Contei-lhe meu sonho, que tinha desde a faculdade, na University of Utah, de fazer um longa-metragem apenas com animação de computador. Eu havia passado dez anos trabalhando nisso, primeiro na New York Tech, em Long Island, e depois quando, em 1979, George Lucas me contratou para levar alta tecnologia à indústria cinematográfica. E tínhamos contratado John Lasseter [que escreveu e dirigiu Toy Story]. Disse a Jobs que era a hora de dar o próximo passo.

Jobs reconheceu que nossa capacidade na área gráfica era maior do que tudo o que ele já tinha visto. Era uma época bem difícil para a Pixar, porque enfrentávamos dificuldades para conseguir um investidor nos termos que queríamos. Acredito que o motivo de nossa sintonia foi o fato de ele ter nos enxergado como um grupo que realmente entendia de tecnologia, mas o que tínhamos mesmo era capacidade de contar uma boa história.” 

5. “Eu lhe darei US$ 500 mil de você conseguir levantar US$ 1,5 milhão”

Wendy Kopp apresentou pela primeira vez o Teach for America em 1989, como tese de doutorado na University of Princeton. No segundo semestre, ela já havia reunido 500 voluntários, mas ainda precisava de mais de US$ 2 milhões para colocar o projeto em andamento. Foi então que conversou, primeiramente por escrito, com o bilionário Ross Perot.

“Eu achava que Perot era de Dallas; eu sou de Dallas. E ele se dizia muito envolvido com a ideia de uma reforma educacional. Não tínhamos nenhum conhecido em comum. Eu apenas pensava: ‘Perot ia adorar isso!’. Então, escrevi para ele muitas cartas, e uma delas ele leu. Telefonou para mim e disse: ‘Quando você quer se encontrar comigo?’. Respondi que estaria lá em uma semana. Precisava de cerca de US$ 2 milhões e ia pedir a ele metade desse valor.

“Antes de entrar em seu escritório, disse a mim mesma que grudaria em sua cadeira até que ele dissesse sim; nunca estive tão determinada. A reunião durou quase duas horas. Levou provavelmente uma hora para que ele acreditasse que o projeto tinha realmente alguma possibilidade de acontecer e que seria algo bom. De repente, ele prometeu: ‘Eu lhe darei US$ 500 mil se você conseguir levantar US$ 1,5 milhão’. E eu soube naquela hora mesmo: isso era tudo de que eu precisava.

“O financiamento foi obtido pouco tempo depois dessa conversa. Eu já havia me reunido com muitos possíveis financiadores, mas eles queriam saber se o projeto realmente vingaria. O compromisso de Perot era a chancela que faltava.”

 6. “Eu não copio, eu crio”

Quando a rede varejista Target, dos EUA, entrou em contato pela primeira vez com o arquiteto Michael Graves, em 1997, queria contratá-lo para desenhar o andaime que seria usado na restauração do Monumento a Washington, em Nova York. Sua colaboração, porém, foi bem maior e impactou uma multidão de varejistas e designers.

“Eu havia acabado de voltar de uma viagem à Europa e convidei Michael para desenvolver alguns produtos para a Target”, conta Ron Johnson, então executivo da empresa e hoje presidente da JCPenney. “Fiquei entusiasmado”, lembra Graves. “Disse que adoraria levar algum design para as pessoas por um valor acessível, democratizar o design.”

O primeiro passo dos dois foi visitar uma grande feira na Europa para, segundo Johnson, identificar tendências. O que viram desagradou a Graves. “Eu não copio, eu crio”, disse ele na época. Isso despertou Johnson e o levou a tomar um caminho diferente. “Fizemos uma lista de artigos de cozinha e decoração”, recorda o executivo. “Se pudéssemos chegar a um preço entre o da Bloomingdale’s e o do Walmart, com produtos de bom design, as pessoas responderiam positivamente a isso”, diz.

“Fiquei preocupado que a imprensa e meus colegas dissessem que havíamos passado dos limites. Pensei que seríamos muito criticados”, conta Graves. A história mostrou que não havia por que eles se preocuparem.

7. “O visual é bom, mas e se...”

A campanha publicitária da vodca Absolut, centrada em sua garrafa, que foi lançada em 1981, é uma das mais emblemáticas de todos os tempos. A TBWA\Chiat\Day, agência que a criou, entrou de vez no mapa como empresa de vanguarda.

Bill Tragos, fundador da TBWA: A força do produto era a garrafa. Mas outras bebidas também eram focadas na garrafa. Tínhamos de ser diferentes.

Graham Turner, redator: Geoff Hayes, meu colega, apareceu uma manhã com um rascunho da garrafa com uma auréola e palavras sobre anjos que não funcionavam. Eu disse: “O visual é bom, mas e se o texto fosse algo como Absolut Perfection?”. Daí surgiu uma dúzia de anúncios. 

8. “Talvez você deva vender suas ações”

Em 2008, Howard Schultz voltou à presidência da Starbucks para fazer o turnaround da empresa. Logo de saída, teve de barrar a pressão dos investidores para que cortasse os benefícios oferecidos aos funcionários, justamente o que tinha feito da rede de cafés um modelo de organização.

“O preço de nossas ações estava em queda livre e eu falava ao telefone com um grande acionista. Mencionando o plano de saúde dos funcionários, que oferecia ampla cobertura e custava na época US$ 250 milhões, ele Disse que era o momento ideal para cortar esse benefício. E completoU: como Muitas empresas estavam fazendo isso, não seríamos criticados.

Tentei dizer a ele que a essência de nossa marca eram os valores humanos e que nossa cultura se baseava em dois benefícios primordiais: ampla cobertura de saúde e equidade na forma de opções de ações, para todos que tivessem jornada superior a 20 horas por semana. falei: ‘Se você acredita que a crise financeira muda nossos princípios e propósitos essenciais, talvez deva vender suas ações. Não estou construindo uma carteira de ações; Estou tentando construir uma grande e duradoura empresa’. Somos uma organização voltada para o resultado, mas temos de liderar a empresa com base em valores humanos.

9. “O que eu queria era não ter um emprego chato”

Josh Abramson e Ricky Van Veen deram o pontapé inicial para o CollegeHumor atrás da cabine do DJ na festa de Natal de 1999 da Advertising.com. Alguns anos depois, os dois tinham de decidir o destino de seu site de vídeos de humor.

Abramson: Eu trabalhava num pequeno banco de investimentos, mas gastava a maior parte de meu tempo no CollegeHumor.

Van Veen: Era um telefonema de negócios, mas ele estava em um telefone público e eu, visitando meus pais em Baltimore, ia conversar deitado na minha cama de infância.

Abramson: As pessoas muitas vezes perguntam: “Por que você não caiu fora?”. Não foi assim. Não era para ganhar muito dinheiro.

Van Veen: Aproveitamos o boom das ponto.com por um tempo e ganhamos muito dinheiro. Aí a bolha estourou. Por sorte, estávamos ainda na faculdade e não tínhamos custos fixos. Aos poucos as coisas foram entrando nos eixos novamente.

Abramson: Antes disso, eu tinha a sensação de que era algo divertido, dos tempos de universidade, mas que, quando eu me formasse, teria de ir trabalhar no Citibank ou em outro lugar parecido. Ficava quase com vergonha de pensar na ideia de ser um adulto tendo como negócio algo que chamasse CollegeHumor. Em retrospectiva, vejo que quando as coisas se tornaram mais difíceis foi o que me motivou para trabalhar pesado. Na ligação com Ricky, eu decidi que era isso que devíamos fazer.

Van Veen: A questão era: íamos conseguir comer? Íamos conseguir pagar a TV por assinatura? Foi uma grande decisão, mas não foi difícil. A alternativa era não ser feliz.

Abramson: Adoraria dizer que tinha uma visão sobre o que devia ser o humor, mas o que eu queria era não ter um emprego chato.

10. “No futuro próximo, todos vão continuar a usar sapatos”

No primeiro boom das ponto.com, no final da década de 1990, os únicos produtos que vendiam bem pela internet eram livros e CDs. A sabedoria convencional dizia que a venda de outros artigos, principalmente de vestuário, não funcionaria. Foi então que Nick Swinmurn, mais tarde fundador da Zappos, deixou uma mensagem de voz para o empreendedor e investidor Tony Hsieh

O ano era 1999 e 5% das vendas de sapatos, que somavam US$ 40 bilhões, eram resultado de pedidos pelo correio, por catálogo. Swinmurn repetia esses números sempre e foi isso que ele disse na mensagem para Hsieh, que comandava a Venture Frogs.

Hsieh ouviu a mensagem e fez uma conta rápida: “Cinco por cento era igual a US$ 2 bilhões. Não importava se eu estava disposto a comprar sapatos sem experimentar antes. O que importava era que muitos consumidores já faziam isso, e parecia razoável partir do pressuposto de que a venda pela internet seria um dia tão volumosa quanto a venda por catálogo”.

No encontro com Hsieh, Swinmurn disse: “Acreditamos que, no futuro próximo, todos vão continuar a usar sapatos. Você precisa, antes de tudo, acreditar nisso. É um grande mercado, e vai continuar sendo”.

“Acho que vai ser legal trabalhar em algo voltado para o consumidor final”, respondeu Hsieh, que havia recentemente vendido sua agência de publicidade, a LinkExchange.

“Talvez você devesse encontrar alguém com experiência no mercado de sapatos.” Swinmurn voltou algumas semanas depois com Fred Mossler, que tinha trabalhado no setor de calçados masculinos da loja de departamentos Nordstrom. Ele perguntou a Hsieh o que ele achava da ideia de batizar a empresa de Zapos, palavra derivada de “zapatos”, sapatos em espanhol, com um “p” a mais para evitar problemas de pronúncia. Surgia a Zappos.